de
Gabriel Perissé
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São
Paulo
2005
PEQUENO
PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO PARCIAL/VIRTUAL
Este livro foi publicado em 1996, e nestes últimos nove anos percorreu caminhos acidentados. Foi adotado e depois preterido. Foi elogiado e esquecido. Chegou à 4ª edição. Parecia esgotado e hoje está disponível nas principais livrarias, ou pode ser adquirido diretamente na Editora Arte & Ciência. Aqui publicamos o trecho inicial do primeiro capítulo. Um aperitivo.
Gabriel Perissé
Maio, 2005
O LUGAR DA LEITURA
Ler
é bom?
Bom? Ler é bom demais. Ler é ótimo.
Ler é mais do que necessário. Enriquecedor. Imprescindível. Mas a verdade é que
talvez você só leia “de vez em quando”. Ou até leia com certa freqüência, mas
gostaria de ler melhor, ou de ler mais, num país em que se costuma dizer que as
pessoas lêem muito pouco, falam mal e escrevem pior ainda.
Diante do desinteresse mais ou menos
generalizado pelo livro (que não é só um problema brasileiro, é mundial), cuja
raiz está na educação familiar e escolar, nós, professores, em desespero de
causa, costumamos cometer um erro fatal. Obrigamos os jovens a lerem Iaiá Garcia de Machado, Iracema de Alencar, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, O Cortiço de Aluísio, ou um outro
romance-cortiço qualquer, ou um romance açucarado ou, pior ainda, o último best-seller, com os seus conhecidos
ingredientes de muito sangue, sexo e agora esoterismo. Democraticamente,
impomos a todos que leiam o mesmo livro e, na prova, respondam
(quase) da mesma forma.
Resultado: fazemos justamente o
contrário do que queríamos. Tornamos o ato de ler um dever desagradável,
irritante, e convertemos o livro num símbolo do constrangimento, da cobrança e
do fracasso. Geramos, assim, pessoas complexadas, novos analfabetos funcionais que, na frase do poeta Mario Quintana, “são
os que aprenderam a ler e não lêem”, e completo: são os que aprenderam a
escrever e não escrevem.
Trabalhamos com a maior boa vontade,
sem dúvida, pois ansiamos fazer entender aos jovens que o hábito de ler é meio
caminho andado para uma pessoa ser intelectual e socialmente saudável e, em
todas as áreas, um profissional completo. O fato, no entanto, é que muitos dos
que alcançam e concluem o curso superior continuam alheios ou, o que é pior,
avessos aos livros. Para o resto da
vida, só lerão “de vez em quando”: manuais técnicos, o caderno de esportes do
jornal, a revista mensal ilustrada, qualquer coisa em que o interesse imediato
pelo assunto supere a barreira de uma incapacidade quase física para ler textos
exigentes e substanciais.
Ou será que nós, professores e pais,
não os motivamos realmente a ler?
*
* *
Forçar
ou proibir?
Não tem sentido forçar alguém a
fazer algo, mesmo que seja algo maravilhoso e fundamental para a sua
felicidade. O que posso e devo fazer é expor à pessoa os motivos racionais em
que se baseiam meus conselhos, motivos que, se quiser, ela transformará em
idéias claras, idéias que, graças a uma vontade firme, se traduzirão em ações
responsáveis, e essas, finalmente, num hábito arraigado.
Por que vale a pena adquirir o
hábito de ler? Uma primeira resposta é que os livros fornecem bastante matéria
intelectual e emocional. As idéias e os sentimentos não caem do céu nem brotam
no jardim. Ler é alimentar-se espiritualmente, é adquirir aquela inquietação interior
— bem como uma série de convicções —, a indescritível riqueza íntima de quem
está atento à vida, de quem carrega consigo a vontade de conhecer e amar
infinitamente.
Mas desde agora faço uma ressalva.
Se os livros são importantíssimos para a aquisição de uma cultura humanista e
de um “estofo”, não são os únicos meios nem devem ser encarados como A Solução
Exclusiva. É preciso, entre outras coisas, que convivamos com pessoas que
saibam conversar. “Papear” sobre os mil e um temas da vida com colegas e amigos
razoavelmente cultos e que utilizem bem da linguagem exercita-nos o raciocínio
e potencia a nossa capacidade de entender e, como conseqüência da reciprocidade
intrínseca numa conversa, de fazer-nos entender.
O cinema é outra possibilidade de
crescimento cultural. Filmes como “O feitiço do tempo” (Groundhog Day), que reflete, à Frank Capra, sobre o valor de 24
horas bem vividas; “O jardim secreto” da cineasta polonesa Agnieszka Holland,
delicadíssima fábula sobre o mundo infantil; “A Bela e a Fera” da Walt Disney,
um desenho animado impecável; “A festa de Babette”, filme franco-dinamarquês
sobre a felicidade humana; ou como “Tempos de glória” (Glory), que nos fala da nobreza e do compromisso a um ideal — são
todos obras-primas que nos aprimoram enquanto seres humanos.
Contudo, as redações do vestibular e
os textos, documentos e cartas nas relações sociais e de trabalho mostram-nos à
saciedade que há muito o que consertar, e por todos os lados. Multidões de
estudantes e profissionais sentem-se perplexos na hora de redigir, ou de falar
em público, sobre um assunto acessível. E sofrem bastante. Tenho acompanhado de
perto este sofrimento, que se torna crônico quando nós, professores (tantas
vezes igualmente submetidos a injustiças que nos desanimam), reclamamos da
sociedade consumista, criticamos a subcultura reinante, ameaçamos os alunos
preguiçosos, anatematizamos as telenovelas (no que, aliás, estamos cobertos de
razão).
Bom, digamos isso ou aquilo, a
realidade é que não temos a fórmula mágica de como sair desse beco sem saída, do qual só os próprios
interessados poderão escapar, se tomarem a decisão séria de investir no
auto-aperfeiçoamento intelectual, na auto-educação, recorrendo, sobretudo (e
agora volto a enfatizar a nossa questão), a uma leitura constante e bem
assimilada.
Às vezes penso que o melhor mesmo
seria proibir expressamente que as pessoas lessem, em primeiro lugar os jovens,
o que levaria todos nós a ler por conta própria. Porque parece que o proibido
sempre atraiu o ser humano, e, desde o começo do mundo, foi o estopim de muitas
curiosidades. Contou um humorista que Deus, na sua primeira conversa com Adão,
disse-lhe: “Meu filho, você pode comer os frutos de todas as árvores do Éden,
só de uma delas é que é proibido”. E imediatamente Adão se agitou: “Proibido?
Proibido? Onde está, onde?”
*
* *
Abrindo
um parêntese...
De nada adiantará a qualquer um de
nós, escrevamos/falemos mal ou menos mal, sentir-se culpado por não ler tanto
ou tão bem quanto gostaria e, como decorrência quase fatal, por não escrever e
falar com mais fluidez, com mais criatividade, com mais segurança. Além de
compreendermos os motivos razoáveis que justifiquem um esforço por se tornar um
bom leitor e uma pessoa que se comunique agradavelmente, é necessário que se faça
uma descoberta íntima, intransferível. A descoberta do prazer da leitura.
Se existe gente que gasta mais
dinheiro com refrigerantes do que com livros, é pelo simples fato de que gosta
de refrigerante, de que sente prazer em bebê-lo. As crianças que, desde os
primeiros anos de vida, se habituam a manusear livros infantis coloridos e
ouvem histórias inventadas pelos pais e avós; que, mais tarde, lêem aventuras
cujos protagonistas são crianças da sua mesma idade; que, com o tempo, conhecem
autores estimulantes como Michael Ende, Monteiro Lobato, C.S. Lewis, Hans
Christian Andersen, Mark Twain, Júlio Verne, e tantos outros; essas pessoas
sentem um imenso prazer na leitura, porque experimentaram esse prazer de modo
adequado às etapas da sua vida, e em doses certas, até o ponto de tomarem
consciência de que, juntamente com o prazer que oferece, a leitura transmite
raciocínios, faz germinar idéias, ensina silenciosamente a escrever e a falar
com clareza, estimula a imaginação, amadurece a sensibilidade etc.
Se por algum motivo não tivemos a
sorte de percorrer essa suave ladeira, e subitamente fomos obrigados a ler
autores que nada nos diziam, criando em nós uma verdadeira alergia aos livros,
a possível solução, para já, é tentar descobrir, sem medo de decepcionar-se,
uma leitura que de verdade nos faça sentir prazer, um envolvente prazer
espiritual.
Prazer que se produz em nós quando
deparamos com um texto que tem o sabor da vida. A propósito, lembro-me sempre
do conselho de Ítalo Calvino que insistia na necessidade de procurarmos os
nossos “clássicos pessoais”, livros que lemos e relemos, não por obrigação, mas
por amor e por prazer.
Essa descoberta personalíssima da
leitura nunca será tardia. Seja quando for, o importante é ter a coragem de
investir tempo, mesmo que apenas uns singelos 10 minutos diários, para
desfrutar de um livro que realmente apaixone.
Há, sem dúvida, casos de pessoas
cujo temperamento ativo e “atirado” faz rejeitar a leitura como uma lamentável
perda de tempo. São pessoas que preferem viver uma aventura real a ler uma
inventada, e, adeptos convictos da linha praticista, aprendem vendo ou ouvindo
mais do que lendo. A sua decorrente dificuldade para escrever é muitas vezes
compensada pela “ginga”, pela simpatia ou por uma habilidade puramente técnica.
Enfim, embora isso não justifique o desprezo aos livros, felizmente nem tudo no
mundo dependerá de conhecermos Machado de Assis ou La Rochefoucauld.
Fechemos o parêntese.
*
* *
A
leitura com dedicação
A leitura bem feita deflagra um
complexo exercício interior de difícil descrição. Ao ler, ponho em ação os
sentimentos, a vontade, a memória, a imaginação, a inteligência. Nasce dentro
de nós uma agitação bem organizada, como a dos formigueiros e das colméias. As
palavras são verdadeiras embaixatrizes da realidade. Fisicamente distante de um
vulcão, trago-o para perto, para dentro de mim quando leio a palavra “vulcão”.
Aparentemente absorto do mundo e distante de todos, o leitor, na verdade, está fugindo em direção ao mundo, está se
unindo a todos.
A fome de conhecer e de amar através
da leitura manifesta-se claramente quando recorremos ao dicionário, o “pai dos
inteligentes”, a fim de descobrir ou ampliar a definição de palavras
desconhecidas e, portanto, abraçar novas facetas da realidade e da humanidade,
abraçá-las e deixar que elas nos abracem.
Mas para abraçar o máximo de
realidades veiculadas pelas palavras é necessário um esforço adicional:
concentrar-se.
Uma leitura dispersiva é pura perda
de tempo. Concentrar-se pressupõe abrir o livro com a disposição de dedicar-se à leitura.
Dizem, em tom de brincadeira, que D.
Pedro II lia muito bem porque o fazia com os cinco sentidos. Com a vista,
naturalmente; com o tato, segurando o livro; com a audição, ouvindo o barulho
das páginas ao serem folheadas; com o olfato, sentindo o cheiro da tinta
impressa; e com o paladar, quando molhava o dedo indicador na língua para virar
as páginas com mais facilidade...
O cúmulo da leitura dispersiva é
fazer como aquele que vai ler para pegar no sono. As regras dessa arte são
muito simples: “Meta-se na cama numa posição confortável, certifique-se de que
a luz é insuficiente, de modo a causar ligeira fadiga ocular, escolha um livro
que seja tremendamente difícil ou tremendamente maçante — de qualquer forma, um
que realmente pouco lhe importe ler ou não — e estará dormindo em poucos
minutos. Os peritos em repousar com um livro nas mãos não precisam esperar o
anoitecer. Basta-lhes uma cadeira confortável na biblioteca a qualquer hora”
[Mortimer J. Adler, A arte de ler.
Rio de Janeiro: Agir, pág. 54.].
E, falando em dispersão, lembro-me
que não foi uma só vez que presenciei (e até participei) do seguinte diálogo:
— O que você anda lendo atualmente?
— Estou lendo um livro legal!
— Ah, é? E como se chama?
— Como se chama? Quer dizer... o
título dele?
— Isso, o título.
— Esqueci...
— Mas quem é o autor?
— Ah, o autor é... é... Como é mesmo
o nome do autor?
— É brasileiro?
— É. Acho que é... Escreve legal...
— Você não lembra do autor nem do
título?
— Olha, é um livro dessa largura...
e tem capa verde... Mas é legal!
Se a cor da capa e o tamanho são as
únicas referências do livro retidas pelo distraído leitor, será que ele está
realmente aproveitando a leitura?
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