Como nomear o que aí nasce
se toda palavra é limite,
sinal-a-menos
e a realidade
— sinal-a-mais?
(Affonso Romano de Sant’Anna)
antes de existir alfabeto
existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
(Arnaldo Antunes)
O idioma é a única porta para o
infinito,
mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.
(Guimarães Rosa)
Eu não caminho para o fim,
eu caminho para as origens.
(Manoel de Barros)
As
palavras falam...
Dar
nomes — ato humano por excelência. Nomeando, pretendemos inscrever em nossa
inteligência o ser do que foi nomeado. Trazemos o objeto extra-mental para o
âmbito da nossa consciência. E, a partir desse momento, podemos atuar sobre
ele: para conhecer e cuidar, ou para manipular e destruir.
Tudo
o que se relaciona com a origem é misterioso, fazia ver Étienne Gilson. Como
nascem/nasceram as palavras? São produto de convenção ou fazem parte da ordem
natural das coisas? No diálogo Crátilo, Platão brinca com as duas
hipóteses. Seu intuito é provocar o interesse e a reflexão mais do que
dissolver o dilema: diálogo aporético. Os participantes do diálogo devem,
diante da não-solução, abdicar do imediatismo, da arrogância e da
intransigência. O positivo da negatividade — não entender é uma grande lição. No
final deste diálogo, porém, é Crátilo quem diz a última palavra, recomendando
ao mestre Sócrates que reflita melhor sobre o tema. Ironia: quem fora inicialmente
eleito o juiz entre dois debatedores recebe conselhos para meditar com mais cuidado...
Na
primeira hipótese, defendida por Hermógenes (o terceiro dos personagens do
diálogo, e discípulo de Sócrates), a atribuição dos nomes às coisas depende do
arbitrário. Uma convenção aprova, o costume referenda. A nossa palavra
“cadeira”, por exemplo, é o nome mais adequado para a cadeira, mas poderia ser
“talofa”.
[1]
Ou outra palavra qualquer. Qualquer conjunto de sons
serviria. A única condição é que os falantes concordem em usá-la. Acordo este
muito longe de ser perdurável. Podemos, por exemplo, a qualquer momento, desbancar
a palavra “cadeira” e entronizar a palavra “silha”, que ainda consta dos nossos
dicionários como termo que designava um antigo móvel usado para sentar, em
consonância com o verbo latino sedere,
[2] e que tem na palavra espanhola silla sua
prima mais próxima.
Hermógenes
acredita que o nome de uma coisa ou de uma pessoa é exato e conveniente, não
por sua natureza mimética, mas pelo consenso, a exemplo do que acontecia com o
nome de um escravo, facilmente alterado se o seu senhor assim o determinasse.
Crátilo, admirador do pensamento de Heráclito, põe em xeque essa crença (com
evidente tom piadístico), alegando que o próprio nome de Hermógenes, “filho de
Hermes”, embora com a anuência de todos e do “portador”, a este não convém, uma
vez que Hermógenes vive em dificuldades financeiras e Hermes é o deus
dispensador de bens. Num segundo momento, Sócrates acrescentará outra
pilhéria: que o nome deste seu interlocutor relaciona-se com a expressão “eirein emesato” (isto
é, “o inventor da linguagem”, Hermes, cf. Crátilo, 408 b), e Hermógenes
mesmo admitirá que o seu forte não é a agilidade verbal.
[3]
Crátilo,
de quem Platão era amigo antes de freqüentar o convívio de Sócrates e com quem
voltou a estudar depois que este foi condenado à morte, advoga a idéia de uma
relação natural entre as coisas e os nomes — quem conhece os nomes conhece as
coisas. É a tese naturalista. O nome como imitação da coisa, como perfeita
expressão da coisa.
Diante de duas figuras como estas:
Pergunta-se:
qual das duas se chama “katereket” e qual delas, “lomamobon”? A tendência
natural, num primeiro momento, é atribuir à figura A o primeiro nome, e o
segundo nome à figura B. Intuitivamente, associo as consoantes oclusivas /k/ e
/t/, a constritiva vibrante /r/ e as vogais orais /a/, /ê/ e /é/ à imagem
contundente, estridente, quebradiça, rompedora, pontiaguda. Já as consoantes
bilabiais /m/ e /b/, a constritiva lateral /l/, e as vogais nasais /ã/ e /õ/,
sinto-as identificadas com a imagem amorfa, molengóide, deslizante.
A
fonoestilística relativiza a arbitrariedade. Os elementos sonoros possuem
expressividade. Percebê-los depende, sem dúvida, de um ouvido apurado. As
crianças e os poetas costumam ter sensibilidade de sobra para esta dimensão da
linguagem. Murilo Mendes relaciona o nome de um leão visto na infância ao
terror que dele sentia:
O nome do leão era Marruzko. Esses dois erres, com o zê azedo e o ká cortante, mais o urro do u
no centro, formavam um composto que
me aterrorizava.
[4]
A
iconicidade (que os adeptos da tese de Hermógenes dirão pertencer ao mundo das
exceções e Saussure indicava ser um processo de criação léxica marginal)
evidencia-se na onomatopéia.
[5]
Que a palavra “bomba” seja bombástica, que
“murmúrio” murmure em nossos ouvidos, que “gargalhada” e “gargarejo” ressoem de
maneira inconfundivelmente gutural, que “soluços” dificultem a glutição (desde
o latim clássico, singultus, e do latim vulgar, sugglutium) constituem algumas provas
(poucas, mas irrefutáveis) de que nossas palavras podem recolher dos sons
naturais um motivo para existir.
A
explicação onomatopaica, afirma-se, é ingênua e infantil (e de fato o é...), e
portanto descartável (conclusão esta que já não precisamos endossar tão
rapidamente). Nietzsche, em seu ensaio Sobre a verdade e a mentira no sentido
extra-moral, cita a palavra alemã Schlange (serpente), derivada por
alternância vocálica do verbo schlingen (enlaçar, estreitar), e ligada
ao enrodilhar-se (schwinden), reproduzindo-se assim o som
da serpente ao se enroscar, pelo menos aos ouvidos do povo alemão.
[6] Mas, argumenta Nietzsche, por que então o verme (Wurm),
que também se enrosca, não é designado por palavra sonoramente semelhante à que
designa serpente? Por que o prefixo “Sch-” não é usado para todos os
animais que se enroscam, que se dobram em si mesmos, o verme, a minhoca, o
caramujo etc.?
[7]
A
hipótese da relação onomatopaica entre palavras e coisas não precisa ser
descartada integralmente. Parte da explicação encontra-se nela. Apenas uma
parte. Certamente uma pequena parte! Há um elo perdido entre o verme e a
serpente. Embora nada impeça ver no verme outro aspecto que não o
enrodilhar-se. Talvez (mero vôo da imaginação...) esteja no seu corpo mole a
razão de que no latim vermis, no inglês worm, no alemão Wurm,
no dinamarquês orm, no finlandês mato e no sueco mask,
repita-se o som m, ligado à sensação do que é mole, macio, maleável (o
que, por outro lado, não valeria para explicar o espanhol gusano, ou o
húngaro kukac).
Existe,
porém, ainda que muitas vezes ínfima (ainda que imaginária...), uma relação
entre som verbal e coisa que produz barulhos e ruídos, ou que produz sensações
tácteis. Pois tocamos aqui a dimensão fisiológica da linguagem, e não há nisso
nada de intrinsecamente abominável. Só não convém absolutizar essa dimensão,
nem exigir que os defensores da teoria onomatopaica encontrem razão para tudo.
Mesmo porque não conseguimos descobrir o tempo todo todas as razões que há para
tudo...
Dentro
deste labirinto em que as palavras circulam nós nos movemos e somos. E nem só consultando
o ouvido ou o tato nós falamos/dizemos. Voltando ao verme, a palavra “vermelho”
a ela se refere, ao menos por dois atalhos visuais. Um: as vítimas da verminatio ficam vermelhas por causa das dores agudas provocadas por vermes. Outro: é
triturando um vermiculus, pequeno verme, a cochonilha, parasita de
plantas, que se obtém a cor vermelha, tonalidade especial entre a cor vinho e o
escarlate.
É
nesse labirinto que veremos Sócrates entrar, acompanhado por Hermógenes e
Crátilo, dando voltas e mais voltas, sem a inútil pretensão de encontrar ou
mostrar a saída aos seus companheiros de conversação. A saída é permanecer no
labirinto (no problemático), é nele sentir-se à vontade. É o prazer de estar lá
dentro, pois ele faz sentido, mesmo quando não faz sentido. Ou, numa formulação
menos escandalosa... assim como nossas crianças na idade de dois anos sentem
prazer ao nomear por nomear, desinteressadas (ao menos assim acham os
adultos...), a princípio, das necessidades prementes (que hão de se impor a qualquer
momento), assim nós também podemos brincar com a linguagem (ato extremamente
racional...). E as palavras se prestam a brincadeiras de moldar e remoldar,
assemelham-se àquelas massinhas coloridas com que se formam figuras mais ou
menos fiéis às formas naturais.
Brincar com a etimologia é experimentar uma
surpresa atrás da outra. A
poeta e lingüista Ivonne
Bordelois (seu orientador no doutorado foi Noam Chomsky) dedica-se a esta
brincadeira sistematicamente (o que lhe atrai o sistemático mau humor das pessoas
“sérias”, sobretudo nos meios acadêmicos). Ela acredita colher, mediante a
pesquisa, a reflexão e a imaginação, o sentido clarificador de palavras
desfiguradas e sufocadas pelas rotinas alienantes e pelo uso desgastante.
Os exemplos se multiplicam.
[8]
“Parente” é aquele que “está parindo”. Nascemos,
não apenas da mãe, ou da mãe e do pai, mas de toda a família. As dores do
parto, quando os parentes estão realmente sintonizados com quem as sente
fisicamente, difundem-se entre avós, tios etc.
“Saber” remete ao indo-europeu sap,
relacionado com sabor — sap, em holandês, significa hoje em dia suco de
fruta. Sap, em inglês, é seiva. Sapiência consiste em saborear o fluido vital da realidade. O sábio sorve a seiva da
vida, ou bebe a sapa, vinho cozido entre os romanos.
“Amor” encontra-se com
“mamar”, ligado vivamente ao infantil “mamãe”, balbucio do bebê ao colocar a
boca no seio materno (e “bebê” é balbucio também, da mãe amorosa que imita os
balbucios do filho). Amar é dar este beijo em quem entrega o seio morno e
alimentador, beijo que suga mas ao mesmo tempo dá prazer a quem se entrega.
Como
costuma acontecer, as pesquisas etimológicas mais radicais são uma aposta,
envolvem conjecturas, parecem arriscadas, são vistas como reconstruções sem suficiente
fundamento “racional”... Desde Crátilo provocam adesões apaixonadas
(talvez encantadas demais...) e reações contrárias, céticas.
Adepto
da filologia
como forma de estudar instituições e mentalidades, Nietzsche, com sua
psicologia filosófica, concebe a linguagem dentro da concepção maior do
conhecimento como atividade do animal humano em luta pela preservação e pela
intensificação da vida. A linguagem antropormofiza a realidade, assimilando-a.
Comunicamo-nos pela linguagem para vencer a solidão e o medo — vontade pragmática. Por isso as
palavras não seriam sinônimas das coisas. As palavras como instrumentos que
produzem valores úteis à vida. As metáforas das coisas não correspondem às
entidades de origem.
No
entanto... a linguagem — a mais misteriosa das faculdades humanas — não se pode
definir de maneira unidimensional. Se é certo que a linguagem possui uma faceta
pragmática, nela não se esgota, pois tampouco se esgota a realidade que parece
falar pelas palavras que pronunciamos... E as palavras dizem mais (e menos) do
que podemos perceber à primeira vista, ou à primeira audição.
E
o que dizem as palavras?
A
antropologia filosófica reconhece no ser humano diversas dimensões. A dimensão
corpórea, a dimensão intelectiva, a dimensão afetiva, a dimensão social, a
dimensão religiosa, e, entre outras muitas, a que nos interessa neste estudo: o homo loquens. O ser humano como falante. Como ser pensante na palavra.
Ser atuante na palavra.
A
linguagem, natural na sua função, é convencional na sua realização, depende da
vontade dos falantes. Mas esta decisão voluntária também por vezes se encontra
involuntariamente determinada... E aqui reside um dos tantos caminhos
desencontrados da reflexão sobre a linguagem.
Os poetas, em geral, aprendem a lidar com essa realidade e nela se sentem como peixes dentro d’água. Nem controlam totalmente a linguagem nem são por ela totalmente controlados. Nela mergulham, nela respiram, e dela emergem, fazendo descobertas (provocando descobertas) e nos fazendo descobrir o que só na linguagem conseguimos ver/ouvir/tocar com mais clareza. O verbo “rolar”, por exemplo, como nos ensina Mattoso Câmara, possui uma configuração fonética que se casa bem com o modo de objetos ou pessoas rolarem. O /o/, inclusive visualmente, na escrita, e no arredondamento dos lábios de quem ouço pronunciar este verbo, sugere o rolamento, além das duas consoantes líquidas /r/ e /l/, que correspondem “à idéia de um movimento desimpedido e contínuo”. [9]
Então,
quando Olavo Bilac escreveu esses dois versos no seu O caçador de esmeraldas...
Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a
rolar na longa voz do vento. [10]
...estendeu
para além das palavras (invadiu nossa percepção) o rolar do lamento pela morte
do bandeirante — a aliteração empregada com maestria. O /o/ em
lamento/chora/longo/rolar/longa/voz/do/vento, o /r/ em chora/rolar e o /l/ em
lamento/longo/rolar/longa combinam-se ao /v/ em voz/vento, à rima lamento/vento
e ao jogo longo/longa, alongando a voz chorosa que se desprende do ar, como se a
própria natureza estivesse em agonia.
Paulo
Leminski escreveu um poema etimológico (“Ouverture la vie en close”),
reforçando a ligação entre o processo criador da poesia e a intuição de que há
necessidades inerentes na criação das palavras mais prosaicas:
em latim
“porta” se diz “janua”
e “janela” se diz “fenestra”
a palavra “fenestra”
não veio para o português
mas veio o diminutivo de “janua”,
“januela”, “portinha”,
que deu nossa “janela”
“fenestra” veio
mas não como esse ponto da casa
que olha o mundo lá fora,
de “fenestra”, veio “fresta”,
o que é coisa bem diversa
já em inglês
“janela” se diz “window”
porque por ela entra
o vento (“wind”) frio do norte
a menos que a fechemos
como quem abre
o grande dicionário etimológico
dos espaços
interiores
[11]
Nosso
falar e escrever, quando estão em sintonia e em diálogo com a realidade,
tornam-se mineração. Busca-se no terreno das palavras a preciosidade, por vezes
com preciosismos irritantes para os espíritos mais imediatistas e pragmáticos.
O vivido há de se tornar inesquecível. Mineração na linguagem, mineração
interior. Descoberta do outro, descoberto do “eu”. A linguagem é âmbito em que
se encontram a realidade pessoal que fala, e a realidade exterior, não menos
loqüente. E mais loqüente ainda será essa realidade exterior, se for outra
pessoa!
Vejamos e ouçamos. O escritor Pedro Nava (conforme estudo de Edina Regina P. Panichi
sobre O Itinerário da Construção Textual Naveana)[12] tensionava a linguagem, trabalhando nos diferentes
níveis, fonético, ortográfico, semântico, para expressar e extrair sentido da
vivência pessoal. Na anotação abaixo, encontrada em seus arquivos (com as
falhas próprias de uma anotação não revisada), refere-se ao modo de falar de
Mário de Andrade:
A voz boa e macia do
Mario de Andrade, suas palavras babadas que as sílabas saíam separadas como
cubos, poliedros cujos ângulos fossem emoussés — como pedra de gelo que
se arredonda dentro dagua derretendo. O Mario derrete as palavras sobretudo nos
seus ch como Warchawski — desenvolver isto. A construção oral tinha
modulações de frase musical. Intérprete de prosa e verso. Dizedor admirável de
conversa.
Texto
que, mais tarde, reaparece em sua forma desenvolvida e definitiva:
E como é? que falava esse granganzá do Mário. Com a melhor voz e o modo mais macio. Como que lubrificava as palavras babando as sílabas que saíam no seu sotaque provinciano, separadas feito cubos de gelo cujos ângulos e arestas fossem émoussés por derreter. Suas sílabas e palavras se arredondavam e escorregavam sobretudo nos seus CHH. Marcha. Marchar. Warchavchik. Chique. Meschick. E tinha a propriedade de falar se rindo — e ria, comele ria! riaté sem razão. E era nessa mesma fala de paulistano sem se impostar nem se importar que ele era um intérprete admirável de poesia e prosa. Lembro de tê-lo visto e ouvido ler coisas suas em casa de Rodrigo. Sua construção oral tinha, então, modulações de frase musical. E não era que declamasse, Deus me livre! O que ele era é um dizedor fabuloso até de frase de conversa. Degustava a palavra e essa sua volúpia palatal é que deve ter inspirado seu Congresso de Língua Nacional Cantada — quando Diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. [13]
Sensível à performance verbal do amigo, que define como um “esteta da língua, glotólogo dono dos mistérios da palavra”, [14] Pedro Nava trabalha a linguagem musicalmente, aludindo, para corroborar a imagem que desenha com as palavras, ao poema que se convencionou chamar A Serra do Rola-Moça (e na verdade é um poema dentro de outro maior, Noturno de Belo Horizonte), do próprio Mário de Andrade. Com esta alusão, ativa a idéia da alegria de viver e escrever, uma alegria não isenta, paradoxalmente, de melancolia.[15] Uma alegria ao mesmo tempo racional, pois se até existe riso sem razão e sem motivo, com mais razão com razão haverá riso. Racional-irracional é o convívio alegre com a palavra e seus mistérios. Alegria que implica o risco de cair no vão do despenhadeiro, de pisar em falso, de percorrer os perigosos atalhos do som e do sentido, mesmo que nem sempre faça sentido todo o som que produzimos. Glosar e gozar — nisto se amplia e se resume o trabalho de quem vive das palavras, e de quem muito bem sabe que as palavras dizem. E que nada dizem em vão...
E o que dizem as palavras? Não dizem toda a verdade
— não dizem tudo, é verdade. Sempre falta à palavra outra palavra que a
complemente e que a explique. Nathalie Sarraute, em O uso das palavras,
imagina as palavras produzindo inúmeras ondulações, e captá-las, ler as
entrelinhas, e as entreletras, é divertido e doloroso. Captá-las com outras
palavras é o exercício de quem escreve. E de quem lê. E também de quem pensa,
pois, ao atentar para a linguagem, atentamos para o ser humano em sua
interioridade, em sua complexidade, em suas ambivalências e dilemas. “A linguagem
humana” — conforme Chomsky — “pode ser usada para informar ou desorientar, para
clarificar pensamentos de uma pessoa, ou para exibir sua habilidade, ou
simplesmente por brincadeira”.
[16]
Como
defendia Mário de Andrade, quem lida com palavras lida com elementos de
consciência. Nas palavras tomamos ciência e consciência do que somos, do que
pensamos, do que pensam os outros, do que os outros são, do que são as coisas.
No diálogo, na leitura, no escrever, no ouvir, ouvimos o que dizem as palavras.
As palavras dizem o que é pensado ao dizer-se (ou o que se diz de modo
impensado). A consciência se ilumina no ato mesmo de se dizer o que sussurra a
consciência. Então, quando escrevo “eu”, o pronome antecipa o meu nome. Sou eu
que escrevo sobre mim. Consciência, contundências. E as palavras dirão o que eu
mal sabia que elas diriam. E quando falo/escrevo o nome de algo, algo se torna
o que é. Algo, às vezes, deixa de sê-lo...
Por
mais estranho que pareça, somos impulsionados a falar/escrever sem saber o que
vamos dizer/expressar. Não pensamos antes de manifestar, na palavra impensada,
o que pensamos. A linguagem fala em nós, “através” de nós. E se tentamos
premeditar palavra por palavra nosso discurso, o pensamento é como que
transfigurado pela palavra, e acabamos por “ultrafalar” o que tínhamos pensado
dizer, ultrapassar o que imaginávamos ter a dizer. Pouco dizem os dicionários
sobre o que as palavras dizem. Será que elas dizem mais? Dizem menos? Por isso
os exercícios etimológicos atraem a atenção dos que esperam da linguagem algo
além de definições convencionais/superficiais. Ou dos que, ao escreverem,
entendem que na palavra podem ser mais do que são — “o que escrevo é mais
aguçado do que sou”
[17]
—, e querem saber o porquê de experimentarem este
aguçamento. A própria Susan Sontag, autora da frase, observa, num trecho do
mesmo ensaio: “... a literatura é importante. ‘Importante’ é uma palavra muito
desbotada, sem dúvida.”
[18]
E, no entanto, etimologicamente falando,
“importante” ganha uma grande importância e nos aguça a consciência, quando a
ela associamos a idéia de “importação”. Importare, no latim, é trazer de
fora para dentro, é trazer para si o que interessa, “comprar” o que consideramos bom e não possuímos.
O
escritor, o professor, o comunicador exportam. E se exportam o importante, as
pessoas se interessam! Recuperar o colorido da palavra “importante” é
redescobrir o que diz a palavra, mesmo quando já emudecemos para ela. Ou
melhor, dialogando com a palavra poderemos ouvir de novo o que ela diz. Mais
ainda: poderemos suscitar que ela diga outras coisas importantes.
Num
artigo publicado no jornal A Tarde (24 de abril de 2005), João Ubaldo
Ribeiro, escrevendo sobre a formação do povo brasileiro, não se contém e
emprega a palavra “importante” duas vezes no mesmo período:
Acho importante recordar isso porque estamos engolindo cada vez mais a noção de que a raça nos divide, deixando de enxergar a evidente realidade de que os negros são também os verdadeiros primeiros brasileiros e que trouxeram com eles tão importante parte da riqueza cultural, que hoje nos ornamenta e singulariza.
A
importância não está apenas na mente (pois é claro que está) de quem considera
isso ou aquilo importante. Na palavra mesma a idéia se aloja, ou com ela se
une, à espera, porém, do falante/escrevente e do ouvinte/leitor que lhe dêem a
devida (ou indevida, às vezes) importância.
Em
diálogo com as palavras
Admirável
a estratégia argumentativa de Sócrates. Problematiza as teses de
Hermógenes e Crátilo, demonstra um conhecimento verbal acima do comum, gerando uma
situação e uma sensação de nonsense com forte intenção pedagógica.
Com
relação à tese de Hermógenes, se as palavras fossem exclusivamente produto da
convenção arbitrária, cada indivíduo ou cada sociedade poderia dar início a
qualquer alteração, qualquer mudança, a seu bel-prazer, ou ao sabor do acaso.
As palavras são vistas, segundo essa ótica, como instrumentos descartáveis ou
meios permutáveis para transportar idéias. O espírito “cratiliano”, porém,
revolta-se contra essa idéia. Uma das histórias de Ruth Rocha (sempre
bem-humorada e crítica atenta) ajudará a materializar essa revolta. Refiro-me a Marcelo, marmelo, martelo. A curiosidade do menino é insaciável. Sua
atenção recai sobre as relações entre nomes e coisas/seres nomeados. Percebendo
a arbitrariedade das palavras, decide agir com mais “lógica”, chamando
“cadeira” de “sentador”, “travesseiro” de “cabeceiro”, “dia” de “solário” e
“noite” de “lunário”. E, afinal de contas, por que ele, Marcelo, se chama
assim? Só porque os pais assim o quiseram?
— Mamãe, por que é que eu me chamo Marcelo?
— Ora, Marcelo, foi o nome que eu e seu pai escolhemos.
— E por que é que não escolheram martelo?
—
Ah, meu filho, martelo não é nome de gente! É nome de
ferramenta...
[19]
O
curioso, no entanto, é que em latim Marcellus é diminutivo de Marcus,
que significa “martelo”. Na realidade, Marcelo (“martelinho”) é nome de
ferramenta e é nome de gente — o personagem martela com tantas perguntas
incômodas o ouvido dos adultos! No final da história, os pais de Marcelo passam
a se esforçar para entender o filho, tentando apreender o lógos que rege
o idioleto do menino.
Conversando
com Hermógenes, Sócrates é “cratiliano” (cf. Crátilo, 390e), defende a
existência de um nome apropriado para cada realidade, para cada objeto, para
cada ser, independentemente das diferenças dos idiomas. O substantivo neutro eidos expressa os traços que fazem de cada realidade uma realidade única. Cada coisa
tem sua própria configuração, suas propriedades, sua forma, que é também aquilo
que fica quando a coisa desaparece. A idéia do nome — onómatos eidos — é
reproduzida mediante os sons, que serão diferentes e diferentemente articulados
em sistemas lingüísticos diferentes, mas sempre com fidelidade ao essencial. Os
legisladores terão, idealmente, o cuidado de encontrar sons acertados em cada
língua. A tarefa dos legisladores, por sua vez, será apreciada e julgada pela
pessoa reflexiva e interrogadora: o dialetikós. Este tem em suas mãos o
leme, dirigindo corretamente (e eventualmente corrigindo) o trabalho daquele
que cria os nomes.
Mas
em que consiste a exatidão dos nomes? Esta é a pergunta mais do que pertinente,
e Hermógenes a faz. Sócrates, com sua conhecida maneira de conduzir o diálogo,
no momento em que poderia pontificar, já que o interlocutor está agora disposto
a ouvir a verdade... declara não saber, e que o melhor seria recorrer aos
sofistas (pagando por este conhecimento um bom preço, evidentemente). Ou então
recorrer aos poetas. E os poetas são aqueles que ouvem os deuses. E são os
deuses que sabem chamar, de maneira firme, correta, cada coisa pelo seu nome
natural (cf. Crátilo, 391e), se é que os deuses dão nomes às coisas...
pois também (é o próprio Sócrates quem faz este alerta, cf. Crátilo,
425e) recorrer a esta noção poderia caracterizar um expediente pouco racional,
a exemplo dos dramaturgos que faziam descer em cena um deus cuja missão era
solucionar de modo arbitrário os impasses vividos pelos personagens: deus ex
machina.
Os
poetas sabem, suponhamos, as palavras que os deuses empregam, e as palavras
carecem de bons leitores, que possam extrair-lhes a verdade. A etimologia é
instrumento com o qual se torna possível revelar o oculto. Encontramo-nos na
pista certa em acreditar que assim é, ou estaremos nos iludindo? A partir desse
ponto, simulando temer enganar-se (e até mesmo enganar Hermógenes), Sócrates
parece cair num êxtase oracular, sem, no entanto, abandonar a ironia, o
distanciamento. Afinal, não é pequeno o risco de tornar-se mais sábio do que
seria razoável...
Brincando
com as palavras, que é uma forma (provavelmente a melhor) de dialogar com elas,
entendê-las por dentro, o poeta Sócrates, o inspirado dialético, o pensador
entusiasmado, inspirado sofista, o “demoníaco” professor, o etimologista sem
medo quer penetrar cada vez mais no labirinto, em busca da justeza dos nomes. E
não são os deuses também brincalhões, amigos do jogo, alegres,
e de vez em quando um tanto enredadores (cf. Crátilo, 406c)?
Exemplo
de brincadeira verbal: “herói” é aquele que foi gerado pelo amor, por Eros. A
semelhança entre as palavras (“Eros”/“herói”) autoriza Sócrates a realizar o
salto. E ele o dá, com liberdade e graça, diante dos sorrisos admirados
(desconcertados, embaraçados...) de Hermógenes e Crátilo. Deste, em particular,
que vê Sócrates defender a tese naturalista com mais criatividade do que ele
mesmo poderia fazer.
Sócrates
quer assemelhar-se aos onomaturgos, conhecer-lhes o modo de pensar, realizar
altos vôos... e começa a falar, e a falar um pouco além da conta. Tornar-se-á
um sutil palrador de tanto parolar sobre as palavras. Tocará os limites da
charlatanice...
Bêbado,
“picareta”, poeta?
Sócrates
aborda a controvérsia physis-nómos com aquela sua postura (marca
registrada do pensador irônico) de que pouco ou nada sabe, recorrendo à ajuda
inestimável dos interlocutores (ou serão meros trampolins de um sofista...), em
busca de algumas luzes.
Seu
trabalho inicial, porém, e isso é notório ao longo da discussão com Hermógenes,
consiste em buscar na estrutura fundamental das coisas um limite à
arbitrariedade da convenção. Seu intento é encontrar o modus operandi do onomastikós (cf. Crátilo, 424 a),
ou seja, daquele que se encontra apto a dar nomes verdadeiros, tarefa adâmica
por excelência (tarefa criativa), segundo o contexto judaico-cristão: Adão (cf. Gênesis 2, 19-20), o primeiro terroso (se houvesse habitantes em Marte
chamar-se-iam “marcianos”, e na Terra, portanto, somos os “terrosos”), criou
nomes para os animais (os terrestres e as aves, os domésticos e os selvagens),
nomes que julgava os mais convenientes. E “conveniente” é aquilo que coincide,
concorda, condiz: convir, “vir com”, vir juntamente.
Sócrates
relativiza o convencionalismo, buscando as mais requintadas razões/raízes
etimológicas para todo e qualquer nome. Atua como artesão, ou como ator de
teatro a interpretar o papel de onomaturgo. Hermógenes chega a observar que,
pronunciando certa palavra, Sócrates usa os lábios para dar à boca forma de
flauta (cf. Crátilo, 418a), como quem a estivesse saboreando pela
primeira vez, ou executando-a naquele instrumento musical imaginário.
Como
saldo desse primeiro movimento do diálogo, planta-se na mente de Hermógenes a
hipótese de que algum tipo de naturalismo pode ser endossado. O preço para que
esta semente tenha sido lançada é um artificioso e rebuscado exercício de e
sobre a linguagem que, como nos ensinou Heidegger, traz a marca da
insuficiência, uma vez que somos sempre ultrapassados pela própria linguagem
que nos envolve.
[20]
Sócrates bebe o vinho embriagador das palavras,
torna-se dionisíaco, corre veloz por entre as palavras. Ouvidos mais afinados
poderão identificar uma ou outra risada entre as falas. Hermógenes ri e elogia
o desempenho de Sócrates. O filósofo brinca, afirmando que seu amigo precisará
inventar elogios mais calorosos, pois pretende continuar avançando no terreno
da sabedoria, se é que realmente avançou até agora (cf. Crátilo,
410e)...
Obviamente
Sócrates não pensa a etimologia no sentido moderno (século XIX em diante). Os gregos daquela época pouco sabiam a respeito da origem de sua
língua (e nós, por acaso, sabemos muito mais?). Em virtude desse reduzido conhecimento especulam com uma liberdade que
parece agredir os princípios básicos da investigação séria, de acordo com os
nossos atuais padrões de reflexão sobre a linguagem e sobre o que sejam
“investigações sérias”. Mas a atitude de fazer livres suposições do grego não
se circunscreveu à antiguidade. Voltaire (século XVIII) dizia que a palavra “chemise”
(camisa em francês) proviera da expressão “sur la chair mise”, pois a
camisa sobre a carne se põe.
[21]
Já Santo Isidoro de Sevilha (século VII) à palavra
latina “camisia” (camisa) atribuía como origem o fato de que, com este
tipo de roupa as pessoas iam para
a cama dormir.
Para
nós, a etimologia de uma palavra revela a sua história fonética e semântica,
mas para Sócrates, para Platão e também para Crátilo (e ainda temos muitos
“sócrates”, “platões” e “crátilos” entre nós) sua principal função é manifestar
em alguma medida a verdadeira natureza do referente. Ora, se há uma
manifestação é porque algo está/estava oculto. A natureza oculta das coisas,
evidenciada pela etimologia, confere a esta o caráter de instrumento
propiciador de epifanias.
Seria
anacronismo nosso esperar de Sócrates análises etimológicas semelhantes às
realizadas hoje à luz de estudos lingüísticos que se consolidaram ao longo dos
séculos XIX-XX. No início desse período de “etimologia esclarecida”, o jesuíta
Lorenzo Hervás y Panduro (1735-1809), aludindo ao Crátilo, já afirmava
que, apesar de reconhecer a grandeza do filósofo, não podia suportar as
considerações etimológicas de Platão, expressas por Sócrates:
Leo el diálogo de Platon, intitulado el Cratilo, ó de la recta razon ó imposicion de los nombres: admiro en muchos discursos de este diálogo el grande ingenio del autor, y al mismo tiempo tropiezo freqüentemente en etimologías pueriles que me representan ridículas sus ideas, y me hacen casi molesta sua lectura. Platon, sabio eminente en sus discursos filosóficos, se muestra algunas veces literato ridículo en sus etimologías [...]. [22]
Menos agressivo, mas infenso às “viagens”
etimológicas de Platão-Sócrates, o erudito Charles Lenormant (1802-1859) também
opinava que os erros de Platão etimólogo (a extrema esquisitice da maior parte
de suas considerações sobre a origem das palavras) deveriam ser compreendidos e
desculpados, dado que o tema era demasiado novo e complexo para o grande gênio:
Peut-être en voyant l’extrême bizarrerie de la plupart de celles [das etimologias] qui sont proposées dans ce dialogue et l’oubli des lois les plus élémentaires de la critique qu’on y constate à chaque pas, se sera-t-on expliqué les erreurs de Platon, par l’extrême nouveauté du sujet, eu égard à son pays et à son époque, prenant en pitié ce grand génie fourvoyé dans um travail auquel ses propres réflexions n’avaient pas suffi pour le préparer. [23]
Contudo, outros tantos leitores de Platão não diriam
que faltou ao personagem Sócrates (e ao seu discípulo como tradutor do mestre)
consciência lingüística ou rigor científico. Leitores próximos como
Aristóteles não o fizeram, ou leitores mais distantes, como Rousseau, que escreve,
em defesa do filósofo: “le Cratyle de Platon n’est pas si ridicule
qu’il paraît l’être”.
[24]
Por
outro lado, admitindo-se que Sócrates estivesse parodiando gramáticos e
etimólogos contemporâneos, o tom humorístico que assume no Crátilo não
se deve ao fato de que o procedimento adotado fosse risível em si. A graça
estava em que, levando às últimas conseqüências o afã de tudo explicar,
Sócrates procurava mostrar que tinha na ponta da língua, sempre, uma descrição
possível (mais plausível ou menos plausível) para cada palavra, contrariando
seu slogan pessoal de que sabia nada saber. Hermógenes (imagino-o
rindo), chega a censurá-lo: “Tenho a impressão, Sócrates, de que empilhas por
demais as explicações” (Crátilo, 420d). De modo temerário, até meio
atabalhoado, Sócrates aventura-se a descobrir a essência das coisas em todas as
palavras que lhe são apresentadas ou que lhe ocorrem ao longo da conversa. Há
um fluxo de palavras sem fim, discurso que não cessa de deslizar, driblando
todo e qualquer obstáculo, qualquer hesitação. E as palavras parecem tornar-se
estranhamente transparentes, como acontece na poesia tantas vezes:
rio: o ir
[25]
Um
palíndromo descortina (a cortina do acostumamento é retirada subitamente) o
movimento do rio. O rio vai. A sua essência é ir, correr, deslizar. O sentido
estava ali o tempo todo, fluindo e ao mesmo tempo inalterável. Nem se opõe,
diga-se de passagem, a rivus, do latim, usado para designar um regato,
um ribeiro, mas também a corrente de qualquer líquido que escorra. É
condizente. Diz junto. Flui junto.
Sócrates,
em meio a aparente delírio etimológico, alertara Hermógenes a respeito de algo
muito importante. Os nomes sonoros, por natureza, têm uma “certa justeza” — “physei te tina orthóteta echon” (Crátilo, 391b). Sócrates emprega o pronome indefinido (tis), relativizando assim uma
posição fechada a favor exclusivamente do naturalismo. E ainda é de se
considerar que os nomes primitivos, supostamente condizentes com os objetos
nomeados, foram soterrados pelos falantes no decorrer do tempo. Estes falantes
acrescentaram, suprimiram ou transformaram sons, tornando irreconhecível a
relação entre palavra e coisa. Daí em diante não será a convenção a
salvaguardar o uso, a compreensão, a possibilidade da conversa entre as pessoas
que empregam as mesmas palavras?
Sócrates
chega a admitir (sempre ironicamente) que suas reflexões são burlescas (cf. Crátilo,
426b). Mas o que fazer perante tema tão difícil, reconhece o próprio filósofo?
Talvez por isso possamos chamá-lo de “picareta”, mas no sentido favorável da
palavra. “Picareta”, xingamento bem brasileiro, é a pessoa inescrupulosa que,
aproveitando-se da ingenuidade alheia, utiliza meios condenáveis para obter o
que deseja. No
entanto, uma boa picaretagem pode demolir estruturas fadadas ao fracasso,
desconstruir esquemas falsos, derrubar muros. Sócrates atua como uma picareta
que escava a terra para encontrar tesouros escondidos, sem a menor segurança de
que eles estão ali...
Os
preconceitos que algumas pessoas têm contra tudo o que cheira a etimologia são
justos e até inevitáveis, se etimologia fosse o que elas pensam que é. Se esta
“doutrina das palavras” pretendesse esquadrinhar de modo infalível, com uma
ilusória onisciência, com a arrogância dos “sabichões” (o sufixo –icho, diminutivo com
conotação pejorativa, recebe aqui uma segunda carga pejorativa no aumentativo),
todas as raízes e folhas, flores e frutos da grande árvore da linguagem humana,
tal etimologia perderia a credibilidade. Podemos confiar numa etimologia com
lacunas, preenchíveis pela imaginação e pela fabulação humanas.
O
que a convencionalidade afiança
Hermógenes
se queixa com Sócrates de que Crátilo sempre se expressa em termos obscuros e
vagos (cf. Crátilo, 427d-e), e este explica que não poderia ser
diferente, uma vez que o problema da exatidão dos nomes é tão importante quanto
complexo.
No
início desta que será a parte final do diálogo, Sócrates se oferece como discípulo de Crátilo,
afirmando que até agora o máximo que fez foi, ao lado de Hermógenes, procurar
algumas luzes sobre a questão. Sabemos, no entanto, que seu objetivo é outro, e
bem outra são as suas condições. Plenamente consciente de que está em jogo uma
discussão relevante em si mesma, Sócrates vai demonstrar a Crátilo que o
naturalismo também é relativo, que não se pode esperar um perfeito encaixe
entre nome e essência do objeto nomeado. Algum tipo de convenção deve ser
aceita.
A
correta aplicação dos nomes depende, segundo Sócrates, de que os legisladores
acertem sempre, mas estes nem sempre executam com total perfeição o seu
trabalho, até porque não dispõem (não dispunham) de nomes que os ajudassem a
conhecer aquilo que eles teriam de nomear pela primeira vez (cf. Crátilo,
438a-b). Há falhas compreensíveis (falhas humanas) nesse processo em que, antes
de conhecer as realidades pelos seus nomes, é justamente com o objetivo de
conhecê-las que os nomes devem ser criados. As
expectativas de naturalistas como Crátilo são elevadas demais: os nomes não comportam
toda a essência dos objetos nomeados, como intuiu Carlos Nejar num de seus
poemas (poema XV de “A chuva do Velho Testamento”):
Deus não é a palavra Deus
e andorinha,
a palavra andorinha.
Há um poço
que não entra
na palavra poço.
[26]
Os nomes podem ser apenas parcialmente adequados à
essência das coisas, há diferentes graus de correção, e por isso precisamos
contar com o elemento da convenção para garantir a comunicabilidade entre os
falantes. Uma certa arbitrariedade é necessária, pelo menos no atual estágio da
humanidade falante, na medida em que a linguagem não é consubstancial à
realidade que pretende exprimir. “A convenção é um expediente inevitável que
completa a relação parcialmente natural com a coisa nomeada”, resume Jorge
Piqué em interessante estudo.
[27]
Em
termos práticos, a justeza da aplicação dos nomes, para que se realize a mútua
compreensão entre falantes, depende da convenção não só quando esquecemos ou
desconhecemos suas motivações e explicações etimológicas, mas também quando
essas motivações e explicações, ao que tudo indica, inexistem no plano material
dos sons e nasceram de um “acordo” tácito posterior, sem maiores lucubrações. Se
uma palavra parece ter um significado por si mesma, mas no espírito daqueles
que a usam assume outro significado... isto significa que se
convencionou algo distinto do que estaria implícito na própria palavra. Neste
caso, o que estamos pensando, ao falar, será compreendido por outros falantes
por força desse “expediente banal, a convenção” (Crátilo, 435c). A
convencionalidade é um recurso de qualidade inferior, mas será ele a afiançar o
sentido de muitas palavras, para não dizer da maioria delas, se pensarmos que a
pesquisa etimológica não ocupa os primeiros lugares entre as nossas
preocupações diárias.
No
caso da língua portuguesa, procurando atualizar o enfoque, temos por exemplo a
palavra “sanguessuga”, que designa um invertebrado que suga o sangue de vertebrados.
A expressão procede do latim sanguis e do verbo sugo, gerando
“sanguesuga” (séc. XVI), “sambixuga”, “sanguichuga” e “sanguisuga” (séc. XVII),
“sanguexuga” e “sanguexupa” (séc. XVIII), entre outras atuais possibilidades,
conforme as regiões brasileiras e portuguesas: “sambexuga”, “samessuga”,
“samexuga”, “samexunga”. Particularmente sugestiva é a presença, em todos os
casos, da vogal /u/ — ao pronunciarmos o “u”, materializamos com os lábios a
idéia de sucção com a boca, o chuchar, o chupar, o sugar da sanguessuga.
De qualquer forma, o termo ganhou um significado a
mais, o do indivíduo que explora os outros, pedindo favores ou dinheiro de
forma abusiva (há registros em autores do século XIX). Se um falante que
conhece o sentido originário não está a par, de acordo com a convenção
estabelecida, de que existe esse uso jocoso da palavra poderá ficar a ver
navios se a ouvir num outro contexto que não o da zoologia.
[29]
A
convenionalidade garante o automatismo da troca de idéias (ainda que sempre
imperfeita), da transmissão de informações (ainda que sempre sujeita a
lacunas), da explicitação de mandatos (ainda que sempre falível), da
manifestação de sentimentos (ainda que sempre limitada). Não somos geniais
onomaturgos capazes de, a cada instante, captar em meio às palavras de uso
rotineiro, a nominalidade intrínseca de cada ser. (Suspensa sua descrença quem
descrê nessa nominalidade, e imagine como seria trabalhoso estar ciente da
aderência ao ser da coisa nomeada de cada palavra pronunciada ou ouvida.)
Como
tornar-se um onomaturgo (mesmo que de segunda categoria)
Como
quem não quer nada, subitamente Sócrates deixa cair o ensinamento: o único modo
autêntico de dar nome às coisas não é o modo arbitrário, pela imposição ou pelo
capricho. O modo adequado de nomear as coisas é o modo natural, deixando vir à
luz o ser das coisas, deixando que este ser venha à tona (cf. Crátilo,
387d). Trata-se de um ato cognoscitivo, portanto. A pessoa ouve e acolhe o nome
ontológico, o nome em si da coisa, sua intimidade. Este modo natural, no
entanto, não nos é... natural. Não se dá sem que precisemos fazer esforços, e
esforços intelectuais e volitivos que, paradoxalmente, são esforços para não
dominar, não forçar, não impor. Sócrates, em seu fazer etimológico, procura
“cavar” as palavras (mas ao estilo de um arqueólogo, com cuidado para não
machucá-las, sabendo porém que ao mesmo tempo são dúcteis e flexíveis), em
busca deste “dizer” que a coisa diz de si mesma — “dizer” sepultado vivo sob o
nome fônico, que é simultaneamente via privilegiada para remontar às origens
conceituais. E a este “dizer” precisamos também dizer alguma coisa, dizer quem
somos nós, o que pensamos, o que queremos.
Embora
idealmente tenha havido, nos primórdios, onomaturgos que fizeram o trabalho
inicial de criar nomes fônicos para as coisas, procurando sintonizar esses
nomes fônicos com os nomes ontológicos (com a essência das coisas), fazendo-o,
como vimos, de maneira nem sempre correta (pois realmente é uma árdua tarefa!),
cabe às pessoas imbuídas da firme paixão de conhecer (essas pessoas Sócrates
chama de “dialéticos”) realizarem a tarefa uma vez mais, estejam elas
mergulhadas no idioma que for, pertençam a esta ou àquela sociedade, seja qual
for o ponto da linha do tempo em que se encontrem.
E para levar a cabo esta tarefa falta-nos
discernimento. Discernir, neste contexto, é o modo pelo qual “o espírito
delimita, com o nome sonoro, o nome em si apreendido”.
[30]
Observador da realidade, e das palavras com que tentamos designá-la, o dialético (que podemos definir como um onomaturgo crítico) desenterra das palavras abandonadas à rotina, ao desgaste do uso irrefletido, a primeira apreensão que gerou o vínculo entre som humano e coisa, supondo-se que essa primeira apreensão de fato captou o ser da coisa, com a maior conformidade possível. E se não consegue desenterrá-la, procura de algum modo recriar (poeticamente) palavras que expressem o acontecimento ontológico. Este fenômeno ocorre entre os poetas com livros editados, mas também entre os poetas anônimos do povo, do cotidiano. Certa vez, ouvi um motorista de táxi em São Paulo dizer que, em sua categoria profissional, havia os “mortoristas”, aqueles que dirigem tão mal que põem em risco a sua vida. E para lembrar um poeta brasileiro com espírito onomatúrgico, transcrevo o poema Seu metaléxico, em que José Paulo Paes cria neologismos mediante processo de amalgamação, no qual cada verso-palavra, antes de concluir-se, metamorfoseia-se com o súbito acoplamento de outra palavra que vem desmentir o significado que se desenhava na mente do leitor: [32]
economiopia
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadãos
[33]
Neologismos
adequados, que deixam as coisas falarem por si, possibilitam o contato pleno
(ou quase pleno) com a realidade. Um contato parcial, mas significativo. Sabemos
como é trabalhoso chegar a esse contato, uma vez que o discurso, no qual
estamos mergulhados, é de “natureza híbrida, verdadeira e falsa ao mesmo tempo”
(Crátilo, 408c). Mais uma vez teremos que exercitar o discernimento, do
latim discernere (que remonta ao grego krínein): “distinguir”, “criticar”, “avaliar”, “decidir”, “julgar”,
“reconhecer”, em que está implícito o ato de penetrar profundamente numa
questão, procurando compreendê-la com o máximo de rigor, sensibilidade e
criatividade.
Discernimento
não significa, pelo menos para o poeta, exclusão dos matizes, dos paradoxos,
dos contrastes, das ambivalências e até das contradições. Ao contrário,
discernir é aceitá-los, é vê-los com clareza. O poeta não teme o hibridismo das
palavras, a ambigüidade (mais ainda, reclama o “direito à ambigüidade”, como
dizia Barthes),
[34]
o duplo, o triplo sentido, a
possibilidade de várias interpretações. Tudo isso não fere a verdade das
coisas, mas amplia nossa visão das coisas em sua complexa verdade. Eis um traço
do realismo poético: não se espantar (e muito menos se desesperar) perante a
fluidez das palavras, limitados instrumentos para conhecer a realidade, esta
realidade que desejamos descrever e transcrever, sobre a qual fabulamos.
Ser