Somos pessoas comuns, com idéias comuns, repetindo lugares-comuns. Não é raro ser comum. Ser comum é a coisa mais normal do mundo. Perceber que somos comuns não me faz nem um pouco original.
Mas como ser pessoas engenhosas, como suscitar em nós idéias novas? Como ser criadores e não apenas comuns repetidores, repetidores das mesmas dolorosas dores, cheirando os mesmos odores, horrorizando-nos com os horrores de sempre?
Não teremos o direito de, mesmo fazendo tudo certo, tentarmos outro tipo de acerto? Não poderemos cometer erros diferentes, mentar ousados equívocos em nossa mente?
Ser engenhoso, mas não extravagante. Ser engenhoso não é sair por aí, avisando a todos que sou engenhoso.
Inventar trocadilhos me fará menos maçante? Fazer quiasmos, produzir metáforas, ironizar, provocar aliterações, testar a elasticidade das palavras até o seu limite me confere diploma informal de engenhoso?
Minha vontade de ser engenhoso... Não quero ser gênio, não... bastaria criar engenhocas verbais, reunir palavras em frases inusitadas, vender neologismos na feira das invejas, fazer malabarismos sintáticos quando o semáforo fecha, patentear rimas que nenhum rimador jamais rimou.
Ser diferente do que tenho sido, colando em mim pedaços de outros, misturando em mim ingredientes outros. Pegar a irreverência de Abujamra, a clarividência de Suassuna, o ritmo de Hermeto, os olhos delirantes de Manoel de Barros, juntar tudo isso e beber de um gole só.
Ou será que pessoas engenhosas são aquelas que, fingindo ser comuns, escondem sob a pele idéias do arco da velha?
Engenhoso mesmo era um tio-avô meu, que parecia não ser bom da cachola. Sapateiro em cidade pequena, ficava o domingo inteiro na porta da igreja, assistindo de fora às missas todas, da que começava logo cedo até a última bem tardinha.
E na segunda-feira lá ia ele visitar as várias pessoas. Batia palmas, perguntava para a dona: “A senhora tem sapato para consertar?” E a senhora, enxugando as mãos em pano de cozinha, com cara de santa dizia que não: “Não tenho não, senhor.” E meu tio-avô respondia: “Que o sapato existe existe, mas a senhora não quer admitir.” Porque ele tinha observado a pessoa ajoelhada na missa do dia anterior, e olhado bem as solas gastas ou furadas.
Engenhoso esse meu tio-avô, que de bobo não tinha nada. Sapateiro com excelente memória, acreditava em pesquisa de mercado sem ter feito curso universitário... |