O ADMIRÁVEL PONTO DE EXCLAMAÇÃO!EM TEXTOS PEDAGÓGICOSDE AUTORES BRASILEIROS
de Gabriel Perissé Ilustração: “Ponto de Exclamação”Gabriel PerisséDoutor em Educação pela FEUSPProfessor da Pós-Graduação do Programa deMestrado em Educação da UninoveCoordenador Pedagógico doInstituto Paulista de Ensino e Pesquisa (Ipep)2005E-mail: perisse@uol.com.brSite web : http://www.perisse.com.br |
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca)
(João Cabral de Melo Neto)
O ponto de exclamação é o gancho do desesperado.
(George Myers)
A perda do ponto de exclamação é a perda da nossa
capacidade de nos assustarmos, de nos revoltarmos,
de nos chocarmos com o que é importante.
(Jack Levin)
Sinais de pontuação?
São marcas de nascença!
(Vladímir Maiakóvski)
Ponto de exclamação, a que vieste?
No Manual que Eduardo Martins organizou para orientar os que redigem no jornal O Estado de S.Paulo (e acabou por se tornar referência mesmo para profissionais não-jornalistas, como revisores, advogados, empresários, professores, universitários etc.), o verbete “ponto de exclamação” diz o seguinte:
Tem valor eminentemente literário; no jornal só deve ser usado em casos muito especiais e quando se quiser dar muita ênfase a uma declaração ou enunciado.[1]
Os grifos são de Eduardo Martins, e demonstram que o ponto de exclamação pode ser usado, mas com muita, muita parcimônia, se é que a expressão “eminentemente literário” não exclui até mesmo essa possibilidade, pelo menos para os que não se consideram literatos.
O mesmo verbete no Manual do jornal Folha de S.Paulo,[2] disponível na web, praticamente expulsa das suas redações o pobre sinal, e explica por quê:
Quase sempre desnecessário no texto jornalístico. Nunca use em título. Em texto noticioso, só use entre aspas na reprodução literal de declaração enfática. A força de um acontecimento jornalístico decorre de sua própria dramaticidade, não de recursos de estilo de qualquer espécie.
Existe, porém, uma edição impressa mais recente, em que o verbete foi reescrito, sempre atendendo aos critérios de excelência do jornal:
Nunca use em título, a não ser em casos excepcionais, com autorização da Secretaria de Redação. Em texto noticioso, só use entre aspas, na reprodução literal de declaração enfática.[3]
À primeira vista, uma certa liberdade. Pensando bem, no entanto, o que era “quase sempre desnecessário” tornou-se possível somente em casos excepcionais, e ainda sob consulta! Trocaram-se seis por meia dúzia. A pergunta (a súplica) do jornalista será: “Por favor, hoje eu posso fazer uma exclamação?”
Curiosamente, no Manual do jornal O Globo,[4] o ponto de exclamação sequer é mencionado. Há recomendações sobre o uso da vírgula, do ponto-e-vírgula, dos dois-pontos e do travessão, mas o sinal gráfico que nos interessa foi de tal modo esquecido que nem chega a ser proibido na redação carioca. Não há por que censurar o que já desapareceu.
No outro lado do oceano, a jornalista portuguesa Anabela Gradim concebeu um Manual de Jornalismo,[5] por ela definido como um “manual extremamente conservador”, em que o ponto de exclamação não tem vez:
O ponto de exclamação serve para diferenciar os enunciados de entoação exclamativa, empregando-se depois de interjeições, apóstrofes, ou do imperativo. Tratando-se de um sinal de pontuação que veicula ordens ou uma forte carga emotiva nunca deve ser utilizado pelos jornalistas em textos noticiosos ou respectivos títulos, excepto se se tratar de uma citação.[6]
Também em Portugal, o jornal Público criou um Livro de estilo, acessável em seu site,[7] em que, uma vez mais, lemos o “desconselho”:
O ponto de exclamação é desaconselhado nos textos jornalísticos, salvo na reprodução literal de uma declaração enfática: “Sinto-me ofendido!”[8]
No campo acadêmico internacional, o circunspecto Editorial Style Guide da Universidade de Sheffield (Inglaterra) é taxativo: “Exclamation marks are generally to be discouraged. Enthusiasm can be shown in other ways”.[9]
No jornalismo alternativo, um dos mais competentes blogueiros brasileiros, Rafael Galvão,[10] com base em algumas diretrizes redacionais de Elmore Leonard, conhecido escritor, roteirista e redator de publicidade norte-americano, não só concorda com uma de suas afirmações: “Keep your exclamation points under control”,[11] mas aproveita para esmagar de vez: “O ponto de exclamação é o crachá da incompetência”.[12]
Na publicidade, a Agência DPTO. oferece em seu site “Dicas de estilo”, esclarecendo que redator de propaganda não é escritor, mas “também tem lá o seu estilo”. Uma das dicas refere-se ao ponto de exclamação com uma tímida simpatia:
Ponto de exclamação: uma vítima do preconceito dos publicitários.
Para não ser radical e falar “evite”, é preferível dizer que o melhor é ter bom senso. No mercado publicitário convencionou-se que os títulos terminam com ponto final. É claro que em alguns casos e quando o próprio ponto de exclamação faz parte da idéia, você tem que usar o dito cujo. Na prática, o ponto de exclamação é claramente discriminado pelos redatores.[13]
Um livro clássico de William Zinsser[14] sobre produção de textos não-ficcionais observa que devemos ter muito cuidado com este sinal, pois transmite a sensação de sentimentalismo meio infantilóide, ou pode incomodar o nosso leitor, se quisermos indicar-lhe com o ponto de exclamação o quanto estamos sendo engraçados ou irônicos, descoberta que o leitor é inteligente o bastante para fazer sozinho. Em suma, não há por que usar esse sinal-símbolo para forçar uma reação emocional nos leitores...
A julgar pelas recomendações acima, publicitários, jornalistas e produtores de textos “sérios” e “profissionais” não têm, em geral,[15] uma boa convivência com este sinal gráfico, cuja função é expressar sentimentos ou sensações meio perigosas, talvez, para a confiabilidade de um enunciado: surpresa, assombro, admiração (por isso ele também é chamado “ponto de admiração”), incredulidade, alegria, indignação, ironia, dor...
Elogio (comedido!) ao ponto de exclamação
E o pedagogo brasileiro que escreve, o que faz ele com o ponto de exclamação? Ou, perguntando de outra forma: o ponto de exclamação é bem-vindo ao mundo da produção escrita pedagógica, das teses, dissertações, ensaios...? Em que medida o ponto de exclamação contribui para ou prejudica a reflexão do educador?
Antes de investigarmos essas questões, interesse central deste artigo, cabe lembrar algumas exclamações a favor do ponto de exclamação! O ponto de exclamação como recurso estilístico legítimo... até mesmo para os jornalistas que, segundo Nietzsche, vieram substituir os professores universitários...
O jornalista Alfredo Ribeiro, por exemplo, mais conhecido como Tutty Vasquez, escreveu a crônica “Vício de linguagem!”[16] , divulgada em 28 de março de 2002 num dos melhores endereços jornalísticos (http://www.no.com.br/) da web, hoje desativado. Tutty descobre que ficou viciado em usar o ponto de exclamação:
Preciso de ajuda! Durante 15 anos fiz uso da coisa achando que dela poderia me livrar a hora que quisesse! No início, tudo não passava de uma brincadeira! Usava 10, no máximo 12 exclamações a cada 30, 40 pontuações que fazia, sem nenhum critério lógico de linguagem! Era, talvez, um jeito infantil de dizer aos leitores que nem tutty era verdade nos textos que escrevia! Para mim, aquilo era um ponto de maluquice!
O jornalista Augusto Nunes escreveu certa vez que eu me expressava “brandindo o ponto de exclamação como uma borduna do idioma”! Achei aquilo lindo, mas a verdade é que passei a usá-lo indiscriminadamente só para contrariar um velho chefe! Era 1988, eu trabalhava no JB, e certa vez fui advertido por Marcos Sá Corrêa, na época editor do jornal: “Não sei por que você usa tanta exclamação! Aliás, nem sei por que esse ponto existe!” Rebelde sem causa, encontrei uma para abraçar e nunca mais usei o sinal de pontuação com que as pessoas normais encerram um período(.)!
O problema é que, ultimamente, já não consigo escrever nem bilhete para a empregada sem exclamar, o que, convenhamos, é ridículo! O mesmo acontece com os e-mails que envio! Dia desses preenchi um cheque com ponto de exclamação no final do valor por extenso! Virou vício incontrolável e, no gênero, já me basta o cigarro!
O tom piadístico encerra uma verdade. O ponto de exclamação, apesar de ser tão mal visto por um estilo jornalístico despojado, e às vezes apontado como um vício, possui expressividade própria, tem o seu lugar ao sol no trato do idioma. Ora, por que abolir o ponto de exclamação?! Uma leitora do prestigiado site cultural Jangada Brasil[17] escreveu uma carta elogiosa, fazendo protesto contra quem deseja expurgar o ponto de exclamação:
Feliz aniversário! Desejo que o sucesso da Jangada aumente cada dia mais, porque vocês merecem. Acho que foi o Drummond que uma vez disse não haver mais motivos no mundo pra se usar o ponto de exclamação. Ele estava enganado. Vocês merecem todos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Parabéns mesmo![18]
De fato, abolir este sinal algo tem a ver com uma atitude “sensata” de anticelebração. Celebrar o quê, afinal de contas? Pense um pouco: admirar-se com o quê? Com as notícias de sempre, com a redundância dos males, com a reinterada constatação da mesquinhez humana? O ponto de exclamação, no entanto, é passional, e sempre consegue admirar-se. Mas tal admiração parece ingênua, ou mesmo autoritária, ou vazia.
Ao ponto de interrogação (de que Drummond fez uso abundante em alguns poemas) adere-se a imagem do filósofo, daquele que questiona, que duvida, que lança o anzol “?” no mar das perplexidades e, com paciência, fisgará alguma resposta, ou não... Quanta sutileza! Já o renegado ponto de exclamação, “borduna do idioma”, conforme as palavras do jornalista Augusto Nunes, clava indígena, tem algo de violento, de primitivo, de espontâneo demais. Exclamar é clamar, gritar, bradar, chamar em alta voz. O ponto de exclamação é ponto de aclamação, de declamação, de reclamação, de proclamação, de conclamação. Incomoda realmente os ouvidos mais sensíveis. Como incomoda também, para os menos expansivos, o exagero da língua espanhola que emprega o signo de exclamación também no início da frase, invertido: “¡”.
O maior defensor do ponto de exclamação no jornalismo brasileiro (sobretudo nas manchetes!) e na língua portuguesa foi o teatrólogo Nelson Rodrigues.

Homem de paixões e obsessões, que bem se conhecia e por isso se definia como romântico — “sou um pierrô, sou um romântico. (...) o romântico piegas”[19] —, Nelson vivia em estado de ponto de exclamação: seu fanatismo futebolístico (pelo Fluminense!), suas afirmações paradoxais, seu vanguardismo conservador, seus “óbvios ululantes”, suas frases redundantes, suas definições definitivas (“cretinos fundamentais”, “grã-finas com narinas de cadáver”...), seu anticomunismo exacerbado, suas posições patéticas, seus exageros verbais. É lendária a sua reação intempestiva e reinterada contra a concepção moderna de um jornalismo objetivo (estávamos na década de 1950),[20] segundo a qual os “idiotas da objetividade” (assim Nelson os chamava, sem a menor tolerância) encaravam como supérfluo o ponto de exclamação:
A busca da “objetividade” significava a eliminação de qualquer bijuteria verbal, de qualquer supérfluo, entre os quais os pontos de exclamação das manchetes — como se o jornal não tivesse nada a ver com a notícia. Suponha que o mundo acabasse. O “Diário Carioca” teria de dar essa manchete sem um mínimo de paixão. Nelson, passional como uma viúva italiana, achava aquilo um empobrecimento da notícia e passou a considerar os “copy-desks” os “idiotas da objetividade”.[21]
Assis Chateaubriand, embora vivesse o jornalismo com paixão e engajamento, exercitou seu pragmatismo ao máximo e cairia, por conseguinte, na categoria dos “idiotas da objetividade”, ao defender uma imprensa brasileira próxima ao modelo norte-americano, supostamente mais objetivo, a prática do noticiário “limpo”, calcada numa técnica própria de redigir (Pompeu de Souza e Carlos Lacerda, grandes jornalistas na época, produziram os primeiros manuais de redação). E eis o que escreveu Dr. Chateaubriand sobre o malfadado ponto de exclamação, contra o qual alimentava insuperável idiossincrasia:
O ponto de exclamação se tornou, nos vespertinos e matutinos sensacionalistas cariocas, o ponto final obrigatório de qualquer manchete. Se um repórter quer dizer que chegou ao porto o Astúrias, ele escreve em manchete de oito colunas: “Chegou o Astúrias!”. Desce o presidente de Petrópolis a fim de presidir uma reunião do ministério. Fato ordinário da atividade administrativa do país. Logo os vespertinos anunciam: “No Rio o sr. Getúlio Vargas!”.[22]
Ao contrário, Nelson Rodrigues acreditava que os jornais tinham de usar exclamação em seus títulos, entretítulos e textos, como forma de expressar emoção e gerar comoção. Insurgia-se contra a frieza daquela nova imprensa. Numa entrevista a Geneton Moraes Neto, que lhe perguntou se o leitor comum sentia falta do ponto de exclamação, respondeu com uma história: o antigo jornalismo...
permitia, por exemplo, que você fosse fazer a cobertura de um incêndio e levasse na mão uma casa de pássaro, uma gaiola, e metesse a gaiola com um pássaro lá num certo ponto da casa em chamas. E aí o repórter que não era idiota da objetividade dizia que o nosso querido fotógrafo ouviu toda a cantoria do canário. E terminava dizendo: “Morreu cantando” (a essa altura, Nelson Rodrigues concede uma entonação teatral a esta frase). O repórter fora cobrir um incêndio. Mas o fogo não matara ninguém. E a mediocridade do sinistro irritara o repórter. Tratou de inventar um passarinho: enquanto o pardieiro era lambido, o pássaro cantava, cantava. Só parou de cantar para morrer. A história desse canário fez um sucesso tremendo. Um sujeito queria uma vala especial para o canário, o nosso querido canário cantor. Era lindo. O jornalismo de antigamente era mais ou menos assim. Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. Lemos jornais dominados pelos idiotas da objetividade. A geração criadora de passarinhos parou em Castelar de Carvalho, o autor dessa reportagem sobre o incêndio. Eis o drama: o passarinho foi substituído pela veracidade que, como se sabe, canta muito menos. Daí porque a maioria foge para a televisão. A novela dá de comer à nossa fome de mentira.[23]
Nelson jamais poderia concordar com aquela famosa recomendação do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald a jovens escritores: “Elimine todos esses pontos de exclamação. Um ponto de exclamação é como rir das próprias piadas”.[24] Pois se é justamente nesse rir de si mesmo, nesse rir (uma outra forma de chorar) da piada e do abismo de estar vivo, se é nessa reação tragicômica que se manifesta o ser dionisíaco!
Não se conformava, e repetia que se o copidesque daqueles tempos visse, pela janela, uma bomba atômica caindo, teria tempo de redigir “caiu uma bomba atômica”, sem acrescentar um ponto de exclamação, um toque de espanto sequer. Nelson não perdoou jamais, por exemplo, que o assassinato de John Kennedy, em 1963, tenha provocado, no Jornal do Brasil, uma manchete sem emoção, infensa ao espanto e ao horror.
O curioso é perceber que, de certa maneira, os dois argumentos se complementam. Não é recomendável escancarar as portas da emoção e, distribuindo o ponto de exclamação a torto e a direito, banalizá-lo, mas seria e é uma grande perda para a linguagem jornalística (e não só para a jornalística) riscar o menor assomo de sentimento. Por outro lado, apesar de tudo, o ponto de exclamação não é o único nem o principal meio de expressar intensidade de vida no texto. Gilberto Freyre, com um estilo anti-retórico, como “inimigo figadal do ponto de exclamação”, conforme palavras de Otto Maria Carpeaux,[25] nem por isso escrevia com frieza, e ele mesmo afirmava (sem exclamar) que ser alguém escritor “é desenvolver uma atividade que nada tem de burocrática. É uma atividade mais de aventura que de rotina”.[26]
Ainda que igualmente contrário ao ponto de exclamação, o Manual de estilo da Editora Abril — cujos organizadores, encabeçados pelo jornalista Carlos Maranhão, acharam por bem ampliar sua utilidade para fora da Abril, dedicando-o a “jornalistas, escritores, editores, estudantes e profissionais ou amadores” — dão um conselho sensato, que, afinal, relativiza a proibição por eles mesmos corroborada:
Evite (o ponto de exclamação). A vontade de usá-lo pode ser sintoma de fraqueza das palavras ou de debilidade da frase. Procure palavras mais fortes para construir uma frase vigorosa.
Mas, quando for o caso de exclamar, exclame![27]
A questão de fundo está aqui: em saber quando é o caso de exclamar, em saber decidir quando o ponto de exclamação é necessário e pertinente. O seu uso deveria depender, não de regras institucionais, externas, mas da paixão e da consideração de quem escreve. Em seu Explode um novo Brasil, totalmente envolvido com o relato da campanha pelas eleições diretas (1983-1984), o jornalista Ricardo Kotscho sente-se na obrigação de justificar, num P.S. à Introdução, o ter deixado escapar um “Viva o Brasil, viva o povo brasileiro!”:
Sei que não fica bem para um repórter escrever assim, com ponto de exclamação e tudo, já ensinavam velhos manuais. Mas o que eu tive a felicidade de ver e de viver nestes últimos meses não está mesmo em manual nenhum.[28]
Embora lhe tenham sempre ensinado “que repórter deve ser imparcial, neutro, jamais pode se envolver com o assunto sobre o qual está escrevendo”[29] (Ricardo começou sua carreira em 1964, quando os padrões da “objetividade” jornalística estavam já assegurados), sua primeira reação, instintiva, é opor a realidade vista e vivida, irrefutável, exclamativa, aos velhos padrões. O segundo gesto, baseado na experiência, é opor-se ele mesmo à tal “objetividade”, e ensinar aos demais a razão desta reação:
Pode-se fazer uma reportagem de mil maneiras diferentes, dependendo da cabeça e do coração de quem escreve, desde que essa pessoa seja honesta, tenha caráter, princípios. Não, não estou falando da tal “objetividade jornalística”, da “neutralidade” do repórter, essas bobagens que inventaram para domesticar os profissionais que não se dobram aos poderosos de plantão, porque têm um compromisso maior com seu tempo e sua gente.[30]
Recusar essa “objetividade” não significa (e essa consideração será de vital importância também para a análise da objetividade própria à reflexão pedagógica) entregar-se ao subjetivismo deformador da realidade. O sentido ético do trabalho jornalístico — o mesmo Ricardo Kotscho faz ver numa entrevista em março de 1993 — leva o profissional a “esquecer suas preferências pessoais”,[31] a não brigar com os fatos, a conduzir o leitor a um contato o mais direto possível com a realidade noticiada. Suas preferências políticas, partidárias, religiosas, sexuais ficam em segundo plano. A grande preferência passa a ser a que caracteriza o jornalista-artista, ponte entre o fato e o leitor. E o fato é tantas vezes exclamador!
Ricardo Noblat, adepto do jornalismo apaixonado (“paixão insaciável”, como preconiza Gabriel García Márquez), do jornalismo que vem satisfazer os aflitos e afligir os satisfeitos, ele que também iniciou sua carreira na década de 1960, defende sem meias palavras a reavaliação positiva do ponto de exclamação:
Sou a favor de que se recupere o ponto de exclamação escorraçado dos títulos. E até mesmo dos textos. (...)
Jornais e jornalistas devem estar sintonizados com o sentimento coletivo. Nem sempre devem curvar-se a ele. Mas não podem deixar de percebê-lo. Nem deixar-se contaminar por ele.
Se o presidente do Uruguai acusa os políticos argentinos de ladrões e depois visita Buenos Aires, chora diante das câmeras de televisão e pede desculpas, por que não usar um destes títulos sobre a fotografia em que ele aparece chorando: “Vexame!”, “Vergonha!” ou até mesmo “Que papelão!”?
Tais títulos emitem juízo de valor, dirão os partidários da neutralidade jornalística. E por isto seriam impróprios. Quanta hipocrisia! Jornal nem sempre é neutro. Vou além: jornal jamais é neutro, nem mesmo quando tenta fingir que é. O ato de publicar uma notícia e de desprezar outra é tudo menos um ato neutro.[32]
Fora do mundo da imprensa, vejamos o que escreveu uma poeta do universo virtual, Luciana do Rocio Mallon[33] , sobre o ponto de exclamação, utilizando-se da etimologia visual:
Ele é um cometa de ponta cabeça,
Que não deseja que ninguém se esqueça...
De um sentimento de espanto e de loucura...
A poeta encontra para o “!” uma imagem sugestiva. A força do cometa, sua passagem luminosa, chamativa, seu caráter premonitório, sua imagem de serpente de fogo ou de estrela fumegante (associações que os habitantes do antigo México faziam), espanto, loucura... A propósito, há quem associe a um cometa a estrela que guiou os reis magos ao local em que se encontrava o Menino (cf. Mt 2, 10 – “Videntes autem stellam gavisi sunt gaudio magno valde”). Cometa exclamativo, anunciando imensíssima (magno valde) alegria:

Já o escritor gaúcho e acadêmico Moacyr Scliar, para quem o ponto de exclamação é usado por aqueles que gritam com ou sem razão (os retóricos, os demagogos e os fanáticos), compara-o com “uma espécie de bastão, de cunha, abaixo do qual há um ponto. (...) como se a implacável parte superior tivesse como alvo a parte inferior.”[34]
Monteiro Lobato faz Emília gritar e exclamar diante dos pontos de exclamação que ela encontra no país da Gramática:
Depois chegou a vez dos Pontos-de-exclamação.
— Viva! — gritou Emília. Estão cá os companheiros das Senhoras Interjeições. Vivem de olhos arregalados, a espantar-se e a espantar os outros. Oh! Ah!!! Ih!!!!![35]
Essas e outras possíveis interpretações imagéticas são significativas, nada impede que as multipliquemos. Contudo, a origem do sinal gráfico é outra, igualmente interessante, e igualmente relativizadora de uma impossível neutralidade.
O sinal provém, na realidade, de um logotipo para a exclamação latina Iō, denotadora de alegria ou dor:[36] um “I” maiúsculo sobre um “o” minúsculo — “!”.[37] Pronuncia-se “iô”, como bem esclareceu Fernando Pessoa, ao traduzir o “Hino a Pã”, do mestre esotérico Aleister Crowley:
Vibra do cio subtil da luz,
Meu homem e afã
Vem turbulento da noite a flux
De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
A mim, a mim![38]
O criador do logotipo teria sido o poeta, historiador e político italiano Coluccio Salutati (1321-1406) — o punctus exclamativus sive admirativus, que, no entanto, só se popularizou a partir de meados do século XVII, provavelmente com a ajuda dos ventos barrocos, que produzem, como dizia Severo Sarduy, uma “exclamación inefable”, e levaram alguns críticos a cunhar a expressão “barroco gritón”.
Sinal de exaltação, de comemoração, de alegria exacerbada. E de dor que não passa, sofrimento e raiva. Um sinal carregado de paixão e êxtase. Sinal que, como vimos, muitos desejariam enterrar vivo, e para o qual o escritor português Augusto Abelaira faz um elogio (fúnebre?) numa de suas crônicas, escrita no começo dos anos 1980:
E passo adiante, (...) aprendi na escola que entre os vários sinais gráficos havia o ponto de exclamação e, naturalmente, apressei-me logo a exclamar. Como lera em Aristóteles (não lera em Aristóteles, que é um pouco indigesto, mas num comentador) que no espanto está a raiz da ciência, eu, desejoso de ser sábio, comecei a ver o mundo como um grande ponto de exclamação, acrescentado, como é óbvio, com um ponto de interrogação.
Uma flor, um regato, o quarto crescente da Lua, uma mulher bonita e inteligente, simbolizava-os graficamente com pontos de exclamação maiores ou menores (enormes no caso da mulher bonita e inteligente). Eu próprio, ao observar-me mais atentamente, me sentia um ponto de exclamação.
E quando, menino, comecei a escrever e escrevi “a gata preta teve quatro gatinhos brancos”, coloquei imediatamente à frente da frase, enxameada de erros de ortografia, cinco pontos de exclamação (um pela gata, quatro pelos gatinhos). Adulto, enfim, ao rabiscar a frase “o VII Governo Constitucional é coerente e está para durar” coloquei também quatro pontos de exclamação (um por cada ano que ele ia durar).
De facto, nenhum outro sinal gráfico me fascina tanto. Porque, no fundo, onde está a humanidade da vírgula ou do acento circunflexo? O ponto de exclamação é o apelo do sentimento, a riqueza da vida afectiva traduzida num simples sinal. E não poderia viver sem o ponto de exclamação, a grande ponte entre o coração e a inteligência, o mistério do universo.
E no entanto... Porque não o dizer, porque não o confessar? Terríveis apreensões invadem o meu espírito. Eu lera recentemente num especialista que nada obstava a que amanhã se desse afectividade aos computadores ― isso ainda não fora feito apenas porque era inútil, embora possível. A minha alma enchera-se de entusiasmo, claro está. Um mundo com computadores afectivos, que se angustiam, que choram, que sentem alegria, que praguejam ― que maravilha! Mas essa satisfação foi breve.
Sento-me hoje em frente duma máquina de escrever novinha em folha e a primeira coisa que procuro é naturalmente o ponto de exclamação. Mas não, esta máquina, última palavra de inteligência dactilográfica, exemplo, de certo, das mais vivas necessidades do homem moderno, resultado de numerosas investigações psicológicas e sociológicas acerca da melhor maneira de os homens melhor se adaptarem à realidade dos nossos dias, tem o cifrão, claro, tem também os sinais aritméticos (por amor da matemática ou da ganância?) tem o sinal das percentagens, tem ainda o ponto de interrogação (até quando?), mas o ponto de exclamação, esse, desapareceu.
E desapareceu certamente porque se concluiu já não ser necessário ― devermos tudo aceitar sem espanto. O espanto, ter-se-á descoberto, é um factor de perturbação no universo, a dedada do demónio.
O começo duma nova era? Afastado dos teclados das máquinas de escrever, numa época em que toda a escrita passa pelas máquinas de escrever (até cartas de amor), o ponto de exclamação (e portanto a própria exclamação) caminham para o rol das coisas arcaicas, precedendo, provavelmente o ponto de interrogação, o outro sinal do demónio. E com mais uns anos, as próprias escolas deixarão de ensiná-lo, a memória dele perder-se-á.
Sem o sinal tradutor do espanto, os homens deixarão de se espantar, a flor, o regato, o quarto crescente da Lua, a mulher bonita e inteligente não terão mais mistério, o mundo passará a ser apenas o que parece ser: compreensível, óbvio, as maçãs cairão porque sim.
Opaco.
Ah!!!!
Oh!!!![39]
Ponto de exclamação? Para quê?
Qual o motivo da ojeriza que muitos profissionais do texto brasileiros sentem, em geral, hoje, pelo ponto de exclamação?
Uma possível explicação é que, depois de os nossos escritores românticos (e em especial os poetas) terem usado e abusado deste sinal para enfatizar suas idéias e emoções, produzindo nos leitores-escritores brasileiros do século XIX e das primeiras décadas do XX a impressão de que compete a quem escreve exclamar com freqüência, produziu-se uma certa náusea, um certo enjôo. Depois do transbordamento de emoções, da veemência, da grandiloqüência, da hipérbole, do arrojo, da overdose emocional, sobreveio a natural ressaca.
O romantismo é uma explosão de sentimentalismo, comoção, euforia, dramaticidade, nostalgia desgarradora, egotismo misturado com o ufanismo da nacionalidade, sensações conflitantes, contraditórias, desesperação, angústia, idealismo... Os seus representantes, quase por instinto, têm de recorrer ao ponto de exclamação!
Castro Alves, por exemplo, não o economiza, ao expressar a dor coletiva que ele assume pessoalmente:
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais!... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
Esta é a última estrofe do talvez mais famoso poema abolicionista, “O Navio Negreiro (Tragédia no Mar)”, declamado (imagine-se com que emoção!) pela primeira vez pelo próprio poeta no dia 7 de setembro de 1868, numa sessão comemorativa da Independência (não esqueçamos do grito do Ipiranga!), vinte anos antes da Lei Áurea.
Fagundes Varela, atingido pela tragédia (a morte de seu filho em dezembro de 1863), também encontra nos pontos de exclamação uma forma de gritar, neste caso, por causa de sua terrível dor pessoal. Como nesses versos do “Cântico do Calvário”:
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,
O porvir de teu pai! — Ah! no entanto,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! — Crença, já não vives!
Vale a pena citar outro adepto da arrebatada opção estética do romantismo, o genial Álvares de Azevedo (1831-1852), em cuja poesia há mil exclamações. Uma rápida vista de olhos e encontram-se estrofes salpicadas de paixão:
E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento! (“O Mar”)
Volta, minha ventura! Eu tenho sede
Desses beijos ardentes que os suspiros
Ofegando interrompem! Quantas noites
Fui ditoso contigo! (“Minha Amante”)
Os poetas pós-românticos, como Alfredo Bosi nos ensina,[40] baixaram o tom da retórica empolgada, refrearam os vôos sentimentais daqueles “exclamadores”. Contudo, mesmo assim, no início do século XX, passada a torrente romântica, um poeta como Augusto dos Anjos (que na falta de melhor classificação chamemos “pré-modernista”) recorria ao sinal de exclamação com liberalidade:
Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento! (“O Martírio do Poeta”)
Baldada introspecção! Noumenalmente
O que Ela, em realidade, ainda sentia
Era a mesma imortal monotonia
De sua face externa indiferente! (“Natureza Íntima”)
E o poeta Cruz e Souza (1861-1898), teoricamente não enquadrável entre os românticos, ainda conservava o apego às exclamações:
Ó tédio amargo, ó tédio dos suspiros,
Ó tédio d'ansiedades!
Quanta vez eu não subo nos teus giros
Fundas eternidades!
(...)
O Tédio! Rei da Morte! Rei boêmio!
Ó Fantasma enfadonho!
És o sol negro, o criador, o gêmeo,
Velho irmão do meu sonho! (“O tédio”)
Boca de dentes límpidos e finos,
De curve leve, original, ligeira,
Que é feito dos teus risos cristalinos?!
Caveira! Caveira!! Caveira!!! (“Caveira”)
Depois de tantas exclamações, por mais justas e necessárias, por mais sinceras e espontâneas, sobrevém a reação. Surge a tendência, liderada pelos temperamentos menos emotivos e menos dramáticos, de, a partir das décadas de 1930, 1940, expurgar este “auxiliar da literatura”, como o denomina Silveira Bueno.[41]
Expurgo de um mero “auxiliar”, que não se fez, porém, de modo tão pacífico assim. Foi precedido e impulsionado pela ironia de um Mário de Andrade que, em Macunaíma[42] (“poema herói-cômico”, assim adjetivado pelo próprio autor), emprega o ponto de exclamação para com ele ridicularizar os hábitos verbais grandiloqüentes e altissonantes da vida literária e intelectual brasileira. Na “Carta pras Icamiabas” satiriza a linguagem empolada, o tom veemente e formalista, recorrendo aos pontos de exclamação:
Porém, senhoras minhas! Inda tanto nos sobra, por este grandioso país, de doenças e insectos por cuidar!... Tudo vai num descalabro sem comedimento, estamos corroídos pelo morbo e pelos miríapodes! Em breve seremos novamente uma colônia da Inglaterra ou da América do Norte!...[43]
A exclamação fatal, que derruba qualquer vestígio de auto-admiração romântica, ou de romântica melancolia autocomplacente, é conhecidíssima: “Ai! que preguiça!...” O ponto de exclamação sem nenhum caráter!
Destronado o ponto de exclamação! O crítico literário Álvaro Lins (1912-1970) chegou a afirmar, comentando a obra de Eça de Queirós (1845-1900), que se podia considerar o escritor português quase contemporâneo nosso, e que o estilo de Eça (não-romântico mas, “por acaso”, um dos autores preferidos de Nelson Rodrigues) só se afastava de nós (isto é, os brasileiros em meados do século XX) pelos constantes pontos de exclamação.
Outro crítico, mais próximo de nós, José Guilherme Merquior (1941-1991), associava ao estilo romântico (e os pontos de exclamação como uma espécie de marca registrada desse estilo) o verbalismo e os efeitos fáceis, uma linguagem declamatória, muitas vezes de conteúdo epidérmico, em que a oralidade influenciava (em sua visão, de maneira empobrecedora) a literatura.[44]
Se no século XX o ponto de exclamação perdeu cada vez mais seu espaço, já no final do século XIX experimentara uma poderosa rejeição na pena de Machado de Assis. A propósito, Lygia Fagundes Telles faz uma observação brilhante a respeito:
Parecia (Machado de Assis) ter um bom relacionamento com José de Alencar, mas Alencar era um romântico que escrevia com certa ênfase e Machado de Assis evitava a ênfase. Lembro agora, no final de Iracema (paixão da minha juventude), daquele fecho enfático, Tudo passa sobre a terra! A mesma idéia sobre a efemeridade das coisas mundanas o nosso autor (Machado) resumia com dureza, Tudo passa. Sem o ponto de exclamação e sem comentários: Tudo passa.[45]
O que não significa que Machado estivesse alheio às potencialidades expressivas deste sinal gráfico. O Capítulo LV das Memórias Póstumas de Brás Cubas (“O Velho Diálogo de Adão e Eva”) expõe sem palavras, apenas com pontos de exclamação, interrogação e reticências o eterno discurso amoroso:
Brás Cubas
.......?
Virgília
.......
Brás Cubas
....................
..........
Virgília
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Brás Cubas
...............
Virgília
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Brás Cubas
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Virgília
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Brás Cubas
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Virgília
.......................................?
Brás Cubas
.....................!
Virgília
.....................!
O uso do ponto de exclamação, pautado pela reflexão criativa, deixa entre parênteses o seu emprego exagerado, inibe a expansividade. Afinal de contas, para que empregá-lo com tanta freqüência? Na realidade, ao mesmo tempo em que ele diz tudo, também tudo pode ser dito, e bem dito, sem a sua presença meio que escandalosa e incômoda. Para que gritar, senhores?! Basta o ponto, sem exclamação.[46]
Extra! Extra! Pedagogo utiliza ponto de exclamação!
Contudo, o ponto de exclamação não foi abolido da gramática, nem da prática dos escritores, nem da expectativa dos leitores. E nos cabe investigar, mais detidamente, como os que escrevem sobre educação no Brasil se relacionaram ou se relacionam com este sinal de pontuação.
A importância desta investigação reside no fato de que podemos detectar, no discurso pedagógico de autores brasileiros, motivações emocionais — a alegria, a angústia, a revolta, a esperança, a surpresa, a repulsa, a antipatia etc. —, que o ponto de exclamação tem o condão de trazer à luz. Ou, ainda, podemos detectar a ausência dessas motivações (uma afetada ausência, quem sabe?), e sobre essa ausência refletir: trata-se de uma “seriedade”, uma “neutralidade” que convém ao polêmico e doloroso tema da educação brasileira? E não seria o caso de pensar que uma reflexão pedagógica sem exclamações perde em engajamento e em necessária contundência? Lembrando de novo Nelson Rodrigues, que em tom jocoso dizia aos motoristas de táxi — “Volte, por favor, esqueci a ênfase em casa!” —, talvez fosse o caso de enfatizar que a ênfase dá vida ao pensamento! Por que ter medo que a exclamação prejudique a explanação?!
Em outras palavras, aquilatemos a dimensão patêmica dos textos sobre educação escritos no Brasil, observando a incidência de um pequeno ponto (mas tão expressivo), como o ponto de exclamação, cuja breve história na estilística brasileira mais recente tracei até aqui.
O páthos, no sentido de transbordamento emocional — paixão. Paixão, envolvimento afetivo, sofrimento e exultação mesclados, uma vez que se considere a educação, mais do que mero “assunto” pesquisado, autêntica e entusiasmante causa dentro de um projeto existencial, o que levava o combativo Darcy Ribeiro, por exemplo, a afirmar: “A educação é uma das causas de minha vida. Por isso mesmo, falo dela sempre emocionado, com o coração na boca”.[47]
Um autor que poderíamos, a princípio, classificar como apaixonado é Rubem Alves, psicanalista, teólogo, escritor, professor emérito da Unicamp.
No cenário da atual reflexão pedagógica, Rubem Alves ocupa um lugar curioso. Professores (sobretudo professoras) declaram seu amor incondicional por seus livros, artigos e palestras. Mas há também profissionais do mundo da educação que fazem sérias restrições ao que Rubem Alves escreve. Alegam estes que o autor não possui cientificidade suficiente para criticar o nosso sistema de ensino.
De fato, Rubem Alves não está preocupado com a cientificidade, no sentido de uma racionalidade sem pontos de exclamação. Defende a magia do ato de educar, infensa à fria e precisa linguagem das ciências da educação. Talvez, se em outros tempos estivéssemos, Rubem Alves caísse nas mãos da Inquisição. Seria queimado em praça pública, sorrindo, enigmático, sua alma subindo aos céus, e uma frase nos lábios: “santa erudição...”
Por outro lado, justiça seja feita, Rubem Alves não é, como alguns exageram, um dos maiores intelectuais da educação brasileira. O próprio Rubem seria o primeiro a negar-se esse título. Não é do seu feitio queimar incenso diante de imagens, muito menos da sua própria. Rubem Alves é simplesmente um escritor, um bom escritor. Sua filosofia da educação é não possuir uma filosofia da educação.
E, como escritor que elegeu o tema da educação como um dos seus preferidos, tem o dom de provocar. O seu alvo predileto é o educador, a escola, as expectativas sociais com relação ao ensino. Em texto publicado pela Folha de S.Paulo, lançou perguntas que são o resumo de sua filosofia da educação — “os saberes que se ensinam em nossas escolas tornam os alunos mais competentes para executar as tarefas práticas do cotidiano? E eles, alunos, aprendem a ver os objetos do mundo como se fossem brinquedos? Têm mais alegria?”[48]
Três perguntas cuja resposta pode ser uma só: não. (Observação importante: não afirmei que a resposta só pode ser uma...) Eis aqui a não-filosofia da educação do profeta Rubem Alves. Os profetas denunciam, alertam, dramatizam, e nisso está sua condenação e redenção. E nisso está, penso eu, a razão pela qual utiliza o ponto de exclamação com certa freqüência.
Em Por uma educação romântica, Rubem Alves demonstra que acredita numa educação que se faça, mais do que com verbas, com o verbo, com a palavra. O seu romantismo é uma resposta às críticas que recebe. Chamam-no de “romântico”, “saudosista”, “idealista”. E é escrevendo crônicas, em tom mais para literário e poético do que para investigativo, que o autor vai definindo e difundindo sua visão de uma educação inteligente e sentimental. Do livro escolhido, o texto que contém o maior número de pontos de exclamação é a crônica “O ipê e a escola”.
Nos primeiros parágrafos, o cronista cita Martin Buber, relembra a primeira vez em que leu o filósofo e teólogo judeu. Deitado numa rede, em plena tarde mineira, ocasião e postura ociosas — propícias, portanto, para o repouso, para este re-pousar, este pousar de novo sobre a alegria, este fazer amor com as palavras, como o próprio autor costuma definir a leitura. Porque o gozo e a alegria o invadiram:
Era de tarde, deitado numa rede, lá em Minas... À medida que eu lia, a alegria ia tomando conta de mim. Ficava alegre porque as palavras de Buber traziam a luz ao meu mundo interior. Naquilo que ele dizia, eu me reconhecia.[49]
O mundo interior iluminado contrasta com o mundo exterior das exigências de rigor acadêmico. O livro mais importante de Martin Buber, Eu e tu...
Não seria aceito como tese em nossas universidades. Não tem notas de rodapé. Não cita fontes. Não enuncia teorias. Não explica o método. Curto demais para uma tese.[50]
Lendo este pequeno livro[51] em estado contemplativo, os olhos do autor se abrem e ele compreende aquilo que vivia sem compreender. Neste momento revelador, verdadeira epifania,[52] desperta-se em Rubem Alves a paixão profética, mais ainda: a paixão querigmática, voltada para o anúncio: “Eu quero contar o que eu vi”.[53] Faltam-lhe as palavras, porém. Levanta-se e resolve dar uma caminhada. E aí, de repente, nova iluminação:
E lá ia eu, absorto em meus pensamentos, quando, de repente, bem à minha frente, uma explosão de cores: a terra ejaculando flores — flores que estavam escondidas dentro dela! Um ipê-rosa florido! Já pensaram nisso? Que as flores são os pensamentos da terra? A terra pensa flores! Dentro dela, as flores ficam guardadas, dormindo, mergulhadas na escuridão. Mas, pela magia de uma árvore, os pensamentos da terra se oferecem aos nossos olhos sob a forma de flores! Dentro da terra estão todas as flores do mundo, à espera de árvores... A terra sonha ipês! As árvores são os psicanalistas da terra![54]
Seis pontos de exclamação (contra duas interrogações) num só parágrafo! Rubem Alves descobre, então, como explicar Martin Buber, como explicar a certeza de que a natureza é sagrada, e de como, na relação eu-tu, o tu pode ser transformado em objeto. O autor não consegue e não quer sair do seu assombro. Está feliz por ter visto, está possuído pelo eros, sente vontade de abraçar a árvore, comer as flores. Êxtase. E sofre, ao mesmo tempo, com a percepção de que, por outro lado, muitas pessoas...
irão passar por aquele ipê sem se assombrar. Para elas, aquele ipê é apenas um objeto a mais, ao lado de postes, casas e carros. Já contei de uma mulher que odiava um manso e maravilhoso ipê-amarelo que havia diante de sua casa. Ela odiava o ipê porque suas flores sujavam o chão! Chão de ouro, coberto de flores amarelas, flores que deveriam ficar lá! Seria necessário tirar os sapatos dos pés para andar sobre elas! Mas aquela mulher não via com os olhos. Via com a vassoura. E uma vassoura dá sempre a mesma ordem: varrer, varrer! Tudo o que pode ser varrido é lixo! E ela, para se livrar do trabalho, envenenou o manso ipê. O ipê morreu. Não mais suja a calçada da mulher.[55]
O espanto do poeta (é como poeta e contador de histórias que Rubem Alves acaba se apresentando) perante a insensibilidade daquela mulher só é possível porque ele está sensibilizado ao máximo com a beleza do ipê, com a descoberta explosiva de que as flores são os pensamentos e os sonhos da terra, com o mistério do universo que, por um segundo eterno, abriu-lhe as portas e o convidou à admiração. Os pontos de exclamação são uma decorrência desse estado de espírito, em que dor e alegria se unem sem se confundirem.
O autor dirige seu olhar iluminado para a escuridão da realidade educacional:
Para um professor que só pensa no cumprimento do programa, todos os seus alunos são objetos. (...) Um doente, para o médico, pode ser apenas um “portador de uma doença”. (Ah! Os professores e alunos, à volta de um doente sobre quem nada sabem, nem mesmo o nome, numa enfermaria de hospital! Ali não está um ser humano! Ali está um “caso” interessante...)[56]
Novos pontos de exclamação como forma de queixume diante da insensibilidade, da falta de humanidade nas relações humanas, da falta de “escolacidade” das nossas escolas:
Já falei que nossas escolas são planejadas à semelhança das linhas de montagem: as crianças são “objetos” a serem “formados” segundo normas que lhes são exteriores. Ao final, formadas, são objetos portadores de saberes, centenas, milhares, todos iguais.[57]
A “escolacidade” é o que caracteriza a escola em sua essência. O vocábulo grego skholé refere-se a descanso, repouso, uso inteligente do tempo, dedicação ao estudo naquilo que tem de mais prazeroso: a descoberta pessoal da realidade, cultivo do pensamento em flor. Rubem Alves, deitado na rede, estava estudando, exercitava-se na atividade repousante, e estimulante, do conhecimento libertador. É deste conhecimento que o autor sente falta na escola, nas nossas escolas. O conhecimento que nasça do assombro fundamental. O pensamento é filho da admiração. Desse pressuposto surge uma definição de educador, páginas adiante: “O educador é um mostrador de assombros. Tudo é assombroso.”[58] E é nisso que reside o início da verdadeira atividade científica:
Copérnico: primeiro, o assombro dos céus estrelados; depois, a compreensão matemática (invisível!) dos movimentos das estrelas. Darwin: primeiro, o assombro diante da variedade das espécies vegetais e animais; depois, a compreensão (invisível!) da sua origem.[59]
Com freqüência Rubem Alves cita Nietzsche, filósofo dionisíaco. Dionísio é o deus do vinho, da música, do êxtase, do ponto de exclamação. Inclui-se Rubem Alves neste tipo de pensadores, que têm a lucidez dos que estão à beira da morte e a capacidade de se espantarem diante de tudo, do belo e do hediondo. Ora, e como se espantar sem pontos de exclamação?!
Três mulheres e o ponto de exclamação
Três escritoras: Cecília Meireles, Fanny Abramovich e Tania Zagury.
A primeira, cuja mãe foi professora primária (a primeira professora a formar-se no Brasil), escreveu crônicas voltadas para o tema da educação em duas fases distintas e em dois jornais diferentes do Rio de Janeiro — Diário de Notícias (960 artigos, de junho de 1930 a janeiro de 1933) e A Manhã (entre agosto de 1941 e outubro de 1943, com a coluna “Professores e estudantes”). Poeta, professora, diretora de escola, preocupava-se intensamente com a formação do educador, com a evasão escolar, com as reformas educacionais.
A jornalista, crítica literária e escritora Fanny Abramovich tem uma longa vivência como educadora. Lecionou na educação infantil, no ensino fundamental e no ensino superior. Militou na imprensa paulista nas décadas de 1970 e 1980. Trabalhou como orientadora pedagógica em vários centros de aprendizagem e já proferiu mais de 300 palestras em todo o país (sobre arte e educação, teatro e educação, teatro infantil, criatividade na educação e literatura infanto-juvenil). Colaborou como consultora editorial, organizou coleções, escreveu mais de 50 livros, mais de 50 prefácios apresentando livros de vários gêneros literários, e cerca de 500 artigos para diversas publicações brasileiras.
Tania Zagury leciona desde 1968, no Rio de Janeiro. Concluiu o Mestrado em Educação, é professora universitária, e se tornou best-seller nacional a partir da publicação de Limites sem trauma – construindo cidadãos, em 2000. “Embora de leitura fácil” — adverte-se no site[60] da autora — “suas teses não são simplistas, pois baseiam-se em toda uma vida de trabalho, estudos e pesquisa em prol da Educação”.
A escolha de três mulheres educadoras-escritoras, para prosseguir na análise do ponto de exclamação em textos sobre educação, não foi casual. De fato, a presença das mulheres no magistério brasileiro é mais do que expressiva. Em 1980, no ensino pré-escolar, a cifra era de 99%; da 1ª à 4ª série do antigo ensino de 1º grau, as mulheres representavam 96,2%; da 5ª à 8ª série, 85,7%; no então chamado 2º grau, 70,4%.[61] O Censo do professor de 1997, realizado pelo INEP, registrava 85,7% de mulheres na educação básica (incluindo, portanto, educação infantil, ensino fundamental e ensino médio). Segundo os dados de uma pesquisa mais recente, realizada pela Unesco em colaboração com o INEP e o Instituto Paulo Montenegro, “dentre os professores brasileiros (do ensino fundamental e do ensino médio), 81,3% são mulheres”.[62]
Ora, à supremacia numérica das mulheres nem sempre corresponde a devida valorização. A própria Fanny, com seu habitual tom de indisfarçável revolta, denunciava, na década de 1980, uma situação que, apesar dos progressos dos últimos vinte anos, ainda está longe da superação:
Enfim, professora é vista sempre como aquela que trabalha apenas na escola primária, sem nenhuma nobreza, sem nenhuma credibilidade, sem nenhum vôo teórico ou vivencial, sem nenhuma organização significativa do seu pensamento e de sua ação, e cuja titulação deve até ser evitada de ser mencionada... É algo menor, desimportante, que não avaliza nenhuma informação, comentário ou cujo raciocínio possa ser levado a sério... Primária!
Já professor, é título, honraria suprema, quase a síntese de todo um curriculum, ao qual, toda a reverência é pouca...
Pode haver tanto preconceito (e numa atividade majoritariamente exercida por mulheres, no decorrer dos tempos e das várias geografias)? Parece que pode, por mais ridículo, estranho e absurdo que soe e seja...[63]
Do ponto de vista estilístico, trata-se de analisar o texto de três professoras e pensadoras bastante envolvidas com a realidade educacional brasileira, verificando, em concreto, sua relação com o ponto de exclamação, e o que ele implica de expressividade (e, talvez, de um determinado tipo de expressividade...). Baseio-me, em princípio, na hipótese de que há um texto a que se possa chamar “feminino”, e que em tal texto esbarramos com mais facilidade na presentação do corpo de quem escreve e, em conseqüência, encontra-se menos vigiada, menos policiada a exteriorização de sentimentos. No texto feminino não teremos apenas palavras, mas a corporização, a feminização, “priorizando mais a voz, o som, que o sentido; mais o como se diz do que o que se diz; mais a coisa que o signo. É especialmente aí que o feminino e a mulher se interseccionam, uma vez que, na mulher — e na escrita feminina —, o corpo ocupa um lugar privilegiado”.[64]
Trata-se de considerar a nossa condição sexuada — condição mais ampla e radical do que a nossa condição sexual — corporificada no texto. A condição sexuada “afeta a vida inteira, desde o físico até o mental”;[65] não existe, portanto, uma forma assexuada de escrever. Acenaria o ponto de exclamação, em textos redigidos por mulheres, com uma peculiar forma de admirar-se, sofrer, alegrar-se com a realidade educacional brasileira? Apesar dos numerosos contra-exemplos e contra-argumentos, não encontraríamos no uso espontâneo do ponto de exclamação os mais tipicamente femininos senso do concreto e do cotidiano, e o pendor para acatar com intimidade o real?